
Luzes coloridas, comércio vendendo acima da média, confraternizações, troca de presentes e mensagens, uma atmosfera de alegria, que envolve grande parte do povo, Papai Noel garantindo a animação da criançada. É sinal que o Natal está chegando. É a
grande festa da cristandade, é a celebração do nascimento de Jesus Cristo. É o momento de reflexão, de amor, de união, de espírito fraternal. Período em que o Papai Noel é o centro das atenções. Aliás, não é demais dizer que toda criança tem o direito de acreditar na figura mágica do velhinho gorducho, de barba branca, sempre
vestido de vermelho. Não importa a cor da pele, a condição social, pobre, rico ou classe média. A figura do velhinho inspira simpatia, alegria, bondade. Não vejo mal nenhum acreditar nesse símbolo natalino, tendo em vista que, por ingenuidade ou conveniência, existem adultos que acreditam em qualquer coisa.
Natal me faz lembrar do distante ano de 1971, quando muito jovem, na redação dojornal A Notícia, matutino fundado por Félix Fink, e dirigido pelo genro Andrade Neto, tive o privilégio de conviver com Bianor Garcia, Aldísio Figueiras, Paulo Paraguaçu, Arlindo Porto, Aníbal Beça, João Valério, Guataçara Mitoso, João Braga, Fábio Lucena, figuras proeminentes da política e do jornalismo da época. Uma equipe brilhante que tinha, também, o professor e poeta Carlos Farias de Carvalho. Farias, que tinha um texto de inquestionável qualidade e uma voz difícil de não ser ouvida, certa vez resolveu declamar um poema do poeta e jornalista alagoano Aldemar Paiva:
“Eu não gosto de você, Papai Noel! Também não gosto desse seu papel de vender ilusões à burguesia. Se os garotos humildes da cidade soubessem do seu ódio à humildade, jogavam pedra nessa fantasia”.
E o poema prossegue e trata de um garoto que, na expectativa de ganhar um trenzinho, decidiu escrever a sua cartinha, confiando que Papai Noel iria atendê-lo. Sonhou com o presente, cheio de esperanças, imaginou que o seu desejo se tornaria realidade. Infelizmente só restou desapontamento, daí a sua raiva, a sua amargura e a vontade de atirar pedras no velhinho, que de bonzinho, para o menino, não tinha nada. Percebendo a frustração do filho, o pai, homem humilde, buscou uma saída para o problema. Pena que a solução não tenha sido feliz e muito menos honesta. Para amenizar o clima desagradável, voltou para casa com o tão almejado trenzinho.
Queria garantir a alegria do filho. E conseguiu.
O, porém da história é que, o brinquedo pertencia ao filho do patrão. O brinquedo não foi comprado. Foi produto de furto, crime contra o patrimônio, subtração de coisa alheia para si ou para outrem. E subtrair algo de alguém não pode encontrar amparo na descabida desculpa de pobreza.
O ato impensado, que poderia representar generosidade paternal, teve como consequência uma séria punição. O menino perdeu o brinquedo, teve que devolver o trenzinho e o pai, após sentença condenatória, teve a liberdade suprimida. Adiante, prossegue o poema:
“Você, Papai Noel, me transformou num homem que a infância arruinou, sem pai, sem brinquedos. Afinal, dos seus presentes, não há um que sobre para riqueza do menino pobre que sonha o ano inteiro com o Natal.” Para aumentar o poço de mágoas do menino, o pai morreu na prisão.
Eu penso que, na vida, sem jamais desistir dos sonhos, o ser humano não pode ter revolta diante de uma decepção. Não pode se sentir inferior, um coitadinho, uma vítima da sociedade. Após a queda o importante é levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Nascer pobre não é pecado. Ter vergonha de ser pobre não é correto.
Afinal de contas, existem muitos pobres sem-vergonha. E, utilizando uma frase de para-choque de caminhão: “a vida só é dura para quem é mole.” No caso do poema não é justo terceirizar a culpa. Sobre infância difícil tenho conhecimento de causa. As dificuldades da infância, os desencantos, a discriminação, me ensinaram a viver, moldaram o meu caráter. Não tenho nada contra a figura do Papai Noel, que simboliza bondade e altruísmo, ícone do Natal. Em certos momentos da vida precisamos viver devaneios, mergulhar em vagos pensamentos, contemplar fantasias, impulsionar a imaginação, fugir um pouco da realidade, para encontrar paz e prazer. Que Papai Noel, que representa generosidade e espírito de partilha seja, neste momento, o grande mensageiro de Deus e nos ofereça muitos motivos para acreditar que a felicidade existe. Fraternalmente, Feliz Natal!(Nicolau Libório é Procurador de Justiça Aposentado, Ex-Delegado de Polícia, Jornalista e Radialista.)- 19.12.25)










