E o tempo passou – Por Nicolau Libório

ARTIGOS/Dr-NICOLAU-LIBORIO(AM)

Exercitando o meu lado nostálgico, comecei a recordar das empresas que existiram em Manaus nas décadas de 1960, 70 e 80 e, por questões diversas, desapareceram. As mudanças nas feições das principais ruas começaram acontecer a partir da implantação da Zona Franca, instituída pelo Decreto-Lei 288 de 28 de fevereiro de 1967, que tinha como objetivo integrar a economia local e incentivar a ocupação demográfica. A partir da oferta de incentivos, a cidade que já foi denominada Paris dos Trópicos, viveu a Belle Époque no período de 1890-1910, prosperidade que foi financiada pelo látex extraído nos seringais. O período áureo da borracha durou 20 anos, proporcionou mudanças extraordinárias.

O povo que habitava a aldeia, em precárias e desagradáveis condições, passou a conviver com o progresso: construção do Teatro Amazonas, construção do Palácio da Justiça, construção do reservatório de águas no antigo bairro do Mocó(hoje bairro Nossa Senhora das Graças), a ligação do centro da cidade ao bairro Cachoeirinha, por meio de modernas pontes da avenida Sete de Setembro. Mas o término desse primeiro ciclo de desenvolvimento econômico trouxe momentos angustiantes para muitos empresários. Para exemplificar, o Palacete Scholz, residência do alemão Karl Waldemar Scholz, na avenida 7 de Setembro, construído em 1903, mudou de nome e de propriedade, em 1918. Com tantas dívidas contraídas durante a primeira guerra mundial e a queda do preço da borracha, Scholz não teve alternativa, hipotecou o imóvel que foi adquirido pelo governo do Amazonas. Passou a ser sede do Poder Executivo e residência dos governadores. O Palacete Scholz virou Palácio Rio Negro. Foi transformado em 1997 em Centro Cultural. A realidade, após mais de meio século de dificuldades, era desanimadora. Mas a partir da chegada da Zona Franca, Manaus voltou a respirar com o novo modelo de desenvolvimento. O clima de prosperidade motivou o surgimento de grandes oportunidades para quem tinha ousadia e visão de futuro.

A Zona Franca provocou mudanças. Produtos importados passaram a ser os mais procurados, tanto pelo consumidor doméstico como pelos muitos turistas que passaram a circular pela cidade, principalmente pela Eduardo Ribeiro, Marechal Deodoro, Guilherme Moreira, Sete de setembro e Marcílio Dias. Muitas mudanças foram necessárias e inevitáveis. Vários estabelecimentos mudaram de ramo ou simplesmente fecharam as portas.

Olhando pelo retrovisor do tempo, vou tentar relacionar alguns estabelecimentos que só serão lembrados por quem tem mais de 50 anos. Vamos remexer o baú de recordações. Da Eduardo Ribeiro desapareceram loja Singer-vendia máquina de costura, Confeitaria Avenida, Bar Avenida, Restaurante Central, Credilar, Loja das Geladeiras, Loja Marabá, Messody-salão de beleza, Padaria Vitória, Cine Odeon- no local foi construído o Shopping Center, Cine Avenida- deu espaço para uma loja Bemol, O Jornal e Diário da Tarde-bem ao lado do Cine Odeon, Jornal do Comércio e Rádio Baré-ficava ao lado do Jornal e Diário da Tarde, LG Modas, Loja Tetenge dos irmãos Miguel Jorge e Alfredo Tetenge, Garagem Esportiva, 4 e 400-depois Lobrás, Exposição Avenida, Pensão Maranhense, Credilar Teatro, Lanchonete Frial, Loja Vogue, Loja Capri, Lanchonete Almanara, Benjamim Alves-Credialves, Casa Nova Magazine, Armazéns Rosas da empresa J.G Araújo. Passando para a Marechal Deodoro, hoje conhecida a rua do Bate- Palmas, passo a relacionar a Casa Goulart- onde eram encontrados chapéus, gravatas, guarda-chuva e outros itens; Banco Ultramarino, Drogaria Rosas, J.G. Ferragens, Souza Arnaud, Drogaria Universal, Central de Ferragens, Andrade Santos-ferragens, Pernambucanas, Benarrós e Irmão, Loja Piratininga, Antonio M.Henrique – Mundo doas móveis.

Da Sete de Setembro, dá para lembrar da Sapataria Limongi, Mambra, Loja Chico Preto, Queive Magazine, Brumel,
Dragão dos Tecidos, Loja das Sedas e dos Algodões, Padaria Beiju, Colégio Ruy Barbosa- do professor Hamilton, Tipografia Lucena, Escola de datilografia e taquigrafia Underwood-da professora Natércia, Loja 22 Paulista, Escola de Datilografia Royal, Hotel Líder- hospedou nos anos 1970 a delegação do Santos e o rei Pelé.
Não posso deixar de fazer referência a Guilherme Moreira, onde funcionava no número 326 a Moto Importadora-meu primeiro emprego. Também consigo lembrar da Panair do Brasil, Cumaru Rosas, SIEL, Varig, J.A.Leite, London Bank, I.B. Sabbá, J.Sabbá, Banco Nacional, Nunes Thomás-estivas, Vasp, EV de Oliveira e Cortume Mago.
Com certeza a relação não está completa. Mas foi o que a minha memória conseguiu oferecer. Devo dizer que não pretendo ser piegas, nem desejo enveredar pelo caminho do sentimentalismo. Relembrar não traz prejuízo, não dói. A ideia só tem o propósito de informar. Quem viveu a fase da modesta Manaus vai recordar. Os mais jovens, com certeza, terão a oportunidade de ficar sabendo. (Nicolau Libório é Procurador de Justiça aposentado, Ex-Delegado de Polícia, Jornalista e Radialista). Manaus, 06.03.26