A Caminhada do Edmilson Paraíba – Por Nicolau Libório

Artigos/Dr-NICOLAU LIBORIO(AM)

A bem-sucedida caminhada liderada pelo deputado federal mineiro Nikolas Ferreira, de Paracatu-MG até Brasília, iniciada no dia 19 e concluída em 25 de janeiro, sob forte chuva, me faz lembrar do saudoso Edmilson Oliveira, ex-jogador e destacado treinador de futebol. Edmilson, que também era conhecido por Paraíba, percorreu em uma semana 286 quilômetros de Manaus a Itacoatiara, para cumprir uma promessa feita à Nossa Senhora Aparecida, caso o time da Rodoviária, que obedecia ao seu comando, conquistasse o título máximo da competição. Graça alcançada, promessa cumprida. Tal fato ocorreu em 1973, já decorrido mais de meio século e mereceu, na época, generosos espaços na imprensa amazonense.

Edmilson Alves de Oliveira, ou simplesmente Edmilson Paraíba, foi um lateral direito que marcou presença no futebol amazonense pela forma prática de marcar os ponteiros. Com um preparo físico invejável e um estilo duro de disputar as jogadas, passou a ser uma das principais atrações do time do Rio Negro, nos jogos contra o Nacional, em razão da eficiência com que conseguia marcar o ponteiro Pepeta, um dos melhores da época. Chegou em Manaus em 1967 e, até parar de jogar, em 1972, com 32 anos de idade, viveu agradáveis momentos, vestindo a camisa alvi-negra.

Edmilson, que teve passagem pelo Náutico do Recife, CRB de Alagoas, Moto Clube e Sampaio Corrêa do Maranhão, tão logo desembarcou em Manaus, ouviu dos dirigentes do Rio Negro que uma vitória contra o Nacional tinha mais valor que o título da temporada. Por isso e pelo grande entusiasmo dos torcedores rionegrinos, resolveu caprichar na preparação física para não fazer feio na hora do grande confronto. O Nacional tinha os irmãos Antonio, Zequinha e Edson Piola. Tinha também Pepeta, acostumado a bagunçar a vida dos laterais, que ficavam desnorteados com os dribles que levavam. Mas Edmilson decidiu colocar em campo o seu futebol sério, de marcação dura, de poucos espaços para o adversário. Mesmo levando alguns dribles, dividiu com Pepeta as atenções dos torcedores. Os do Rio Negro exultavam com as bolas divididas que o paraibano conseguia levar a melhor. Os do Nacional comemoravam quando Pepeta conseguia ultrapassar o grande obstáculo com um drible desconcertante. Pepeta e Edmilson passavam a ser um espetáculo à parte. Mas no primeiro duelo, Paraíba saiu na vantagem. O Rio Negro venceu o Naça por dois a zero, com gols de Sabá e Santos, jogando com Clóvis, Edmilson, Maravilha, Catita e Valter; Rubens e Ademir; Anísio, Santos, Sabá e Paulinho. Era um time que dava grandes alegrias, que conseguiu passar dois anos sem perder para o Nacional. Tempo em que a toalha vermelha de Clóvis e as preces do treinador Rubem Corrêa exerciam forte influência psicológica no elenco.

Ainda nem bem havia guardado as chuteiras, em 1972, recebeu convite para dirigir o time da Rodoviária, clube que era presidido por Áureo Cid Botelho e que tinha como diretor de futebol o engenheiro Sérgio da Paz, diretor do DER – Am. Foi o primeiro trabalho como treinador e logo um título, em 1973. Armou um esquema de trabalho com

jogadores desprezados por outros clubes. Tinha consciência das limitações da equipe, que teve que se superar à base de muita garra e extraordinária disposição de luta. Por ironia do destino a decisão aconteceu exatamente contra o Rio Negro, seu ex-clube, e o valente time do DER – Am foi campeão com Iane, Dirlei, Joaquim, Téo e Zequinha; Tadeu e Sudaco; Laércio, Zezé, Julião e Santiago.

Católico convicto, decidiu pagar uma difícil promessa feita a sua protetora, Nossa Senhora Aparecida. Cumpriu de acordo com o prometido. Foi a pé de Manaus até Itacoatiara, onde foi festivamente recebido por muitos torcedores, que foram até a vizinha cidade dar apoio moral ao técnico campeão, que conseguiu vencer o percurso em quase uma semana. É claro que ele contou com o apoio do seu clube, que deslocou um carro com mantimentos. A sofrida caminhada de Edmilson Paraíba foi o grande assunto dos jornais e das resenhas esportivas das emissoras de rádio, no distante início dos anos 1970.

Cheio de prestígio, foi convidado a dirigir o time do Nacional em 1974, que possuía um elenco de excelentes jogadores. Resultado: campeão amazonense, ganhando todas as partidas dos três turnos, marcando quarenta gols e levando apenas dois. O Nacional tinha uma equipe imbatível. Procópio; Antenor, Renato, Eurico Souza e Luiz Florêncio; Jorginho e Rolinha; Roberto, Serginho, Bibi e Reis formavam a base do time que era motivo de alegria dos fanáticos torcedores azulinos.

Ao perceber o aceno de Ézio Ferreira, que lhe ofereceu boas vantagens financeiras, foi comandar o Rio Negro no campeonato de 1976. Foi vice-campeão, ganhando apenas o título da Taça Amazonas. Aliás, Edmilson foi um dos poucos treinadores no futebol do Amazonas, que conseguiu conquistar cinco títulos consecutivos. Foi campeão da Taça Amazonas de 1973 a 1977, a última vez pelo Sul América.

Largando o comando do Sul América em 1978, assumiu o Fast, sem muita sorte. Em 1980 voltou ao Rio Negro, mas a campanha foi interrompida com o afastamento do time do campeonato. Mas no seu retorno ao Fast teve a grande decepção de sua vida. Nunca conseguiu provar, mas ficou tremendamente magoado ao tomar conhecimento de que alguns jogadores haviam se vendido. Ficou tão revoltado com os “gaveteiros” que sentiu vontade de abandonar tudo. Após haver saboreado importantes vitórias e espantado algumas tristezas, o disciplinado Paraíba passou a gerenciar, no início dos anos 1980, uma das primeiras academias de ginástica de Manaus, a LABOCAFI, de propriedade de dois médicos amigos seus, até conseguir um emprego em um órgão público.

Edmilson, que para os rionegrinos era símbolo de raça e determinação, morreu no início dos anos 1990, vítima de grave acidente de trânsito. Mas deixou para os filhos Cristian e Edcarla a certeza de que, em vida, sempre foi um profissional digno de respeito e da admiração até mesmo dos seus adversários.(Nicolau Libório é Procurador de Justiça, Ex-Delegado de Polícia, Jornalista e Radialista – 13.02.26)