
No domingo, quando soube da morte de Amazonino Mendes, passou-me pela mente, como em um filme, um dia do longínquo ano de 1964. O mês era abril e fazia pouco mais de trinta dias que havia sido dado o golpe que derrubou o presidente João Goulart e implantou a ditadura militar no país. Estávamos no velho prédio da Praça dos Remédios, aguardando o início de uma aula na Faculdade de Direito, por volta das quatro da tarde, quando em frente estaciona uma camionete do Exército. Dela desembarcam uns dez soldados, sob o comando de um oficial, entram na escola e, de lá, levam preso o Amazonino que, àquela altura, cursava a terceira série.
Era apenas mais um dos atos de arbitrariedade do novo governo, mas para nós, estudantes, de marcante significado porque tolhia a liberdade de um colega sem qualquer explicação ou justificativa plausível. Afinal de contas, o ideário defendido pelo movimento estudantil da época, se tinha conotação visivelmente esquerdista, não representava nenhuma ameaça real para o funcionamento do Estado.
Acontece que os militares tomaram ilegalmente o poder e se impuseram a missão de implantar, a qualquer custo, a doutrina da segurança nacional e, para fazê-lo, era imperativo cercear qualquer movimento que, de longe, pudesse lembrar o que eles, genericamente, chamavam de “comunismo”. Na verdade, ser “comunista” para os militares era apenas não pensar como eles e manifestar qualquer opinião que, mesmo por via transversa, pudesse representar contrariedade à tal doutrina da segurança.
O certo é que Amazonino foi preso e na prisão ficou por mais de noventa dias. Foi solto por absoluta falta de provas, mas, no cárcere, se mostrou firme e intransigente na defesa de seus pontos de vista, sem jamais chegar à vergonha da delação de seus companheiros de luta e ideal.
Amazonino era um dos melhores oradores políticos daqueles tempos anteriores à ditadura. Lembro-me de que ele e Álvaro Gaia Nina (infelizmente também já falecido) formavam dupla imbatível nos comícios e congressos de que participávamos. Com uma retórica vibrante e impecável dialética, as palavras de ambos eram como chicotes a vibrar contra as injustiças sociais e as iniquidades de um regime que se sustenta do suor e do sangue da maioria para benefício de minoria indiscutivelmente privilegiada.
Depois, Amazonino ingressou definitivamente na política partidária, onde se traduziu como um fenômeno de popularidade, bastando lembrar, para confirmação da assertiva, o número de vezes em que foi eleito prefeito de Manaus e governador do Estado, além da passagem pelo senado da República.
Jamais traiu suas origens e seus mandatos sempre tiveram o timbre da preocupação com os mais humildes, mormente no que diz respeito à política educacional e cultural. A criação do bumbódromo em Parintins é um atestado do que se afirma e, mais transcendente, a completa restauração do Teatro Amazonas, que voltou a figurar como uma das casas de ópera mais importantes do mundo.
É impossível, porém, deixar de reconhecer que a implantação da Universidade do Estado do Amazonas foi a obra prima dos governos de Amazonino, a traduzir, como já bem o frisaram os professores Ademir Ramos e Lourenço Braga, o compromisso do governante com uma juventude ávida de conhecimentos. Com ela, expandiram-se as perspectivas de milhares de jovens amazonenses, principalmente os que vivem em nosso interior.
Em termos pessoais, minha família e eu temos um dever de eterna gratidão a Amazonino, em razão do que ele fez em favor da recuperação de meu filho Alfredo, vítima de brutal acidente. Tratou-se e recuperou-se em São Paulo, graças à ajuda do então governador.
Ontem, fui-lhe ao velório. Repassei, então, o tempo em que servi como Secretário de Justiça. E de tudo o que passou, da época estudantil à governança, ficou-me a certeza de que estava diante do corpo de um amazonense ilustre por todos aspectos. Humano e justo.
Adeus, velho companheiro. Muito obrigado por tudo, Amazonino Armando Mendes.(Felix Valois é Advogado, Professsor, Escritor, Poeta – felix,[email protected])