
Várias vezes abordei, neste espaço, o abuso parlamentar na proposição de datas comemorativas, algumas extremamente bizarras. De igual forma, essa inutilidade se repete na oferta de comendas, medalhas e diplomas. Na maioria dos casos, as figuras homenageadas estão longe de exibir qualquer merecimento, a justificar a pretensa homenagem. A ideia que se manifesta de maneira clara é a da mais completa falta de assunto, tratando-se, antes, de uma simples forma de buscar demonstração de trabalho. Afinal de contas, os que recebem a outorga de um mandato estão na obrigação de mostrar aos seus eleitores que não vivem no mais absoluto ócio. E recebendo dinheiro público.
Mas, convenhamos, há hipóteses em que a total inércia soaria melhor que a falsa visão de trabalho. Quando a emenda sai pior que o soneto, teria sido de bom alvitre preservar o original da composição poética.
Agora mesmo, os jornais noticiam que um deputado estadual, aqui da Assembleia Legislativa deste glorioso estado do Amazonas, apresentou um projeto de lei que visa à concessão do título de “cidadão amazonense” ao senhor Flávio Bolsonaro. É isso mesmo que você leu: o homenageado é o mesmo cidadão conhecido pela prática das “rachadinhas” em seu gabinete e que (saiba-se lá a razão!) desempenha um mandato de senador pelo Rio de Janeiro.
Era só o que faltava. Com lei ou sem ela, não existe a menor possibilidade de um amazonense raiz, tal qual eu, vir a se considerar conterrâneo de um elemento dessa estirpe. Cuido que a só semelhança que se há de encontrar entre nós e ele é o pertencimento à espécie humana. Até mesmo quanto a isso pairam sérias dúvidas. Pelo que se vê divulgado, alguns acreditam que esse senhor, também conhecido como “filhote número 1”, tem “gesto e peito” (para lembrar Camões) que ensejam a crença de se tratar de um quadrúpede, parte do rebanho bovino, mais do que um bípede.
De mais a mais, o que tem ele a ver com a nossa esplendorosa terra? Com certeza, jamais se banhou nas águas do Rio Negro nem viu o pôr do sol na sua baía, quando o astro-rei se deita para “mais uma noite de amor com as Anavilhanas” (essa é minha mesmo). Aposto que é incapaz de descascar um tucumã e, muito menos, saborear-lhe a polpa com a farinha do Uarini.
Jamais experimentou a delícia de um pirarucu de casaca, para depois se deleitar com o suco de cupuaçu. Da tartaruga, nem falo. Está ela difícil até para nós, os gentios, na medida em que matar bicho se tornou mais perigoso que matar gente. E um tucunaré moqueado? Soubesse ler o pretenso homenageado, isso lhe pareceria a
demonstração da teoria do moto perpétuo. Vou além: teria ele viajado de “recreio”? Claro que não, até porque, sendo especialista em rachar, não teria a mínima condição de atar uma simples rede de dormir. Daqui da nossa terra ele só se lembrou mesmo quando se tratou de atacar o modelo econômico da zona franca de Manaus. A ignorância é hereditária.
Flávio Bolsonaro, cidadão amazonense! Não imaginei que estaria vivo para presenciar tamanha e tão despropositada aleivosia. O guerreiro Ajuricaba há de se estar contorcendo no túmulo aquático que preferiu à escravidão. E, liberto de seus grilhões, não há de perdoar o autor de ideia tão estapafúrdia quanto ridícula.
De qualquer forma, como é impossível ocultar o viés ideológico que se subsume na proposição, fio de ser meu dever dar modesta contribuição a todos os ociosos da minha terra. Assim é que fico no aguardo da apresentação de novos projetos que busquem trazer para o seio da cidadania amazonense figuras que já têm lugar assegurado na calçada da fama da estupidez. Eis alguns nomes a considerar: Silas Malafaia, Tarciso Freitas, Roberto Jefferson e padre Kelmon. Será imperdível a cerimônia em que esse time de paspalhos se igualará a nós.
Nem pensar. Tô fola.
(Felix Valois é Advogado, Professor, Escritor e Poeta – felix.valois@gail.com) – 07.02.26










