CIDADE/Jaime Barreto, lenda do rádio amazonense, morre em Manaus

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O rádio amazonense perdeu ontem, uma de suas maiores referências. Faleceu Jaime Barreto, jornalista, radialista e uma das lendas da narração esportiva no Amazonas. Seu nome está definitivamente ligado ao período de ouro do futebol local, quando o rádio era o principal elo entre o torcedor e o espetáculo das arquibancadas. O velório será na funerária Canaã, a partir das 21h00 deste sábado (31/01). O corpo, atendendo a uma vontade dele, será cremado.

Jaime construiu parte de sua carreira no Rio de Janeiro, onde atuava como narrador de futebol, até ser procurado pela Rádio Rio Mar de Manaus, que vivia um momento de necessidade profissional. A vinda para a capital amazonense, porém, acabou tomando outro rumo. Com forte ligação com os Diários Associados, Jaime optou por integrar a equipe da Rádio Baré, pertencente ao grupo, em uma permuta histórica que levou Arnaldo Santos para a Rádio Rio Mar.

Assim se formou um trio que atravessou gerações: Jaime Barreto na Rádio Baré, Arnaldo Santos na Rádio Rio Mar e Carlos Carvalho na Rádio Difusora. Jaime era o último deles ainda vivo e agora passa também a integrar um time de craques celestiais. Eles foram os grandes narradores de um tempo em que o futebol amazonense vivia seu auge, com o Estádio Vivaldo Lima, o Vivaldão, ainda em sua primeira configuração, recebendo públicos superiores a 50 mil pessoas de forma corriqueira, especialmente nos clássicos Rio-Nal entre Rio Negro e Nacional. Para efeito de comparação, a atual Arena da Amazônia comporta 42 mil torcedores com lotação máxima.

Naquele tempo, a audiência do rádio era quase um ritual coletivo. A cada cinco minutos, o “tempo” era marcado por sinais sonoros característicos de cada emissora. Jaime Barreto eternizou uma das chamadas mais lembradas do rádio esportivo local: “Eiiiii, você aí! Pare e escute!!! Decorridossss!…”, abrindo caminho para o tradicional sinal da Rádio Baré, o mesmo da Rádio Tupi do Rio de Janeiro, em disputa direta com os sinais usados pelas emissoras concorrentes.

Humanismo marcante

Esta homenagem também se faz na primeira pessoa. O jornalista Marcos Santos relembra com emoção o papel decisivo de Jaime Barreto em sua formação profissional. Jaime era chefe da equipe de esportes da Rádio Baré quando Marcos chegou a Manaus, no fim de 1980, aos 19 anos. Fez questão de promover sua estreia no rádio amazonense em grande estilo: um jogo Vasco da Gama x Nacional, com o Vivaldão completamente lotado. O Vasco vinha com um elenco estrelado, liderado por Roberto Dinamite, com Mazaropi no gol, Zanata no meio-campo e comandado por Mário Jorge Lobo Zagallo.

Embora tivesse chegado como narrador, a estreia foi na função de ponta de gol, ao lado de Armando Carvalho, também de Parintins. Marcos ficou responsável por acompanhar o Vasco, enquanto Armando cobria o Nacional. Faltando cerca de 20 minutos para o início da partida, Jaime pediu que ele subisse à cabine de transmissão, localizada no ponto mais alto do estádio, após uma longa e cansativa escadaria. O pedido escondia uma surpresa.

Na cabine, aguardava Doalcei Bueno de Camargo, um dos maiores nomes do rádio brasileiro, poeta da palavra falada e rival, em seu tempo, de vozes históricas como Valdir Amaral, Jorge Curi e Fiori Gigliotti. A convite de Jaime Barreto, Doalcei fez uma saudação especial à estreia do jovem radialista, recitando uma poesia sobre o nascimento da flor, comparando o início de uma carreira simples a algo que ainda desabrocharia em grandes momentos, incentivando à perseverança.

Foi um gesto simples, direto e profundamente humano, marca registrada de Jaime Barreto. Médico formado mais tarde, espírita praticante, acompanhava com atenção as trajetórias dos colegas e exercia um cuidado quase paternal com os mais jovens do rádio, como demonstrado nesse episódio, ocorrido há 46 anos, que se tornou inesquecível para Marcos Santos.

Ao longo do dia, nomes históricos do rádio amazonense como Nicolau Libório, Luiz Rougles e Ormando Barbosa, parceiros de Jaime Barreto em diferentes fases da carreira, fizeram questão de relembrar histórias, momentos e a importância de um profissional que ajudou a construir a identidade do rádio esportivo no Amazonas.

Jaime Barreto deixa um legado que ultrapassa microfones, transmissões e estádios. Deixa uma escola, uma forma de fazer rádio e uma memória afetiva que seguirá viva nas ondas sonoras e na história do jornalismo amazonense.(Portal Marcos Santos/LR Notícias)