
Vai começar a vigésima terceira edição da Copa do Mundo de futebol, com sedes nos Estados Unidos, México e Canadá e com a participação de 48 seleções que disputarão 104 partidas. A competição que terá 12 grupos, começará no dia 11 de junho no estádio Azteca, com México e África do Sul e será concluída no dia 11 de julho, no MetLife em Nova Jersey, região metropolitana de Nova York.
É bom salientar que o torcedor brasileiro ainda não entrou em clima de euforia. A seleção, comandada pelo italiano Carlo Ancelotti, ainda não deu razões para que a pátria de chuteiras manifeste otimismo. Até mesmo os mais fanáticos não encontraram justificativas para acreditar no sucesso de uma equipe desprovida de boas qualidades técnicas.
Mas nem tudo pode ser visto com pessimismo, pelo menos na primeira fase em que os adversários são aparentemente domáveis. Na estreia contra o Marrocos, no dia 13 de junho, há equilíbrio de forças. No dia 19 contra o Haiti, o time brasileiro sempre esteve em um patamar de superioridade. E, contra a Escócia, dia 24, o nosso escrete é infinitamente superior, com oito vitórias e dois empates. Então, no primeiro momento não há dúvida que o time de Ancelotti não terá grandes dificuldades para prosseguir. Será absurdamente trágico imaginar que esses adversários, tecnicamente modestos, consigam ter a ousadia de surpreender. Também não podemos ser ingênuos ao ponto de acreditar que a camisa canarinha ainda consiga assustar os nossos adversários.
Temos que admitir que a safra de jogadores extraordinários, craques, gênios, repletos de virtudes, é coisa do passado. Por questão de generosidade o máximo que podemos admitir é que temos bons jogadores. A escassez é evidente. Não surgiu ninguém diferenciado. E, por isso, pela obviedade e bom senso, a presença de Neymar no grupo de convocados é imprescindível. Ele, com cinquenta por cento de condição física, é capaz de fazer a diferença. É melhor que qualquer um dos atuais convocados. É um jogador que atrai a marcação, que pensa a jogada, tem apurada técnica e dispõe de farto repertório de dribles envolventes. Deixar Neymar de fora não é uma boa ideia. É burrice pura.
No passado o técnico brasileiro tinha dificuldade para escolher. Não pela carência. Havia fartura de craques. Vamos lembrar de Jairzinho, Rivelino, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Tostão, Gerson, Bebeto, Romário, sem esquecer do gênio Pelé, que era hors concours, pelas inúmeras virtudes técnicas.
Lembro que em 1969, no meu tempo de repórter, perguntei do saudoso técnico João Saldanha – que depois foi substituído por Zagalo – quais seriam a formação e o esquema tático do time para a Copa do México, em 1970. E a resposta foi direta, bem objetiva. Disse ele: vou escalar um goleiro para não levar “frango”, uma zaga para dar porrada, um meio campo organizado e o resto você pergunta do Jairzinho, do Tostão, do Rivelino e do Pelé como eles vão fazer os gols.
Sem saudosismo, já tivemos o privilégio de experimentar a opulência, a fartura de jogadores talentosos, hoje há escassez. Em 1958 e 1962 tinhamos Gilmar, Didi, Garrincha, Zagalo, Nilton Santos, Djalma Santos, Amarildo e Pelé. Na conquista do tetra em 1994, tivemos Taffarel, que não tomava “frango”; Dunga, que liderava o grupo e, para animar a festa da torcida, no ataque havia a dupla Bebeto e Romário. Já em 2002, no pentacampeonato, o técnico Felipão pode contar com Cafu, Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldo Fenômeno e o “bruxo” Ronaldinho Gaúcho.
Aquela manjada afirmação de que futebol é onze contra onze é conversa fiada, balela, sem fundamento. Dizer que futebol não tem lógica é outra besteira. Quem tem talento reúne condições de ostentar superioridade, levar vantagem.
Lembro-me de uma frase do respeitado e saudoso jornalista Armando Nogueira: “A seleção, substantivo feminino, tem, como a mulher, o insondável poder de virar a cabeça do homem que a conquista”
Tenho que admitir que, no presente momento, a nossa seleção não está virando a cabeça de ninguém. O torcedor, desconfiado, ainda não conseguiu encontrar ânimo para enfeitar as ruas de verde e amarelo.(Nicolau Libório é Procurador de Justiça aposentado, Ex-Delegado de Polícia, Jornalista e Radialista.) – 27.03.26










