
Nenhuma história sobre o passado do futebol amazonense será contada sem a inclusão dos nomes dos irmãos Piola. Edson, Antonio e Zequinha defenderam os grandes clubes de Manaus. Jogaram no Fast, Nacional e Olympico. Os dois mais velhos chegaram a vestir a camisa do Rio Negro e foram ídolos, também, da torcida do Paysandu. Os dois ainda tiveram o privilégio de cumprir um período de estágio no Palmeiras de São Paulo.
Os irmãos Piola moravam na avenida Ayrão e desde cedo participavam das peladas de rua. Vez por outra eram severamente advertidos pela mãe, dona Cleuse, mas logo a seguir rumavam para o campo da Coreia participar das intermináveis “peladas”. Para quem não conheceu, o campo da Coreia ficava onde hoje está erguido o Hospital Getúlio Vargas, terreno que pertenceu ao América e que os irmãos Artur e Amadeu Teixeira nunca conseguiram materializar a ideia da construção da sede.
E por que Coreia ? Porque era uma guerra para se conseguir uma vaga. Era pouco campo para muitos jogadores, responde Edson Piola. Zequinha, o mais jovem era o mais sacrificado. Jogava de centroavante, no meio dos grandões, levava muita “sarrafada”, mas aprendeu a se defender.
A passagem de Edson e Antonio Piola pelo juvenil do Fast foi rápida, apenas cinco jogos que representaram cinco vitórias. Logo depois, foram promovidos ao time principal, em 1963. Zequinha também acompanhou a trajetória dos mais velhos. Entrou para o juvenil do Fast em 1964, conquistando o título de artilheiro.
Dentre os inúmeros jogos disputados, Edson recorda do seu primeiro jogo no juvenil do Fast. “Nós jogávamos contra o Sul América. Batido o centro, alguns toques e, diante da distração da defesa adversária, bati forte, com convicção. Foi meu primeiro gol como jogador registrado na federação. Ganhamos o jogo por um a zero.”
Quatrocentos, quinhentos ou seiscentos? Edson Piola nunca teve a preocupação de contabilizar. Tem certeza que foram muitos gols, de cabeça, de pé direito, com o esquerdo e até de calcanhar. Na área, pela sua competência nos passes, dribles e conclusões das jogadas, ele era o dono do espaço, dava o maior trabalho para os zagueiros. Em 1963, vestindo a camisa do seu amado Fast, numa competição em que participaram seis clubes, marcou vinte três gols. Foi o artilheiro do ano.
O início foi no Fast, mas a trajetória de ídolo começou no Paysandu, por quem foi contratado em 1965. Não teve nenhuma
dificuldade para impor o seu futebol objetivo, técnico, cheio de criatividade, mesmo diante de adversários renomados. Por isso e por ser adepto das regras disciplinares, conseguiu ganhar a confiança e o respeito do técnico Juan Alvarez, que decidiu efetivá-lo ao lado de Rubilota, no ataque do time.
E olha que o Paysandu, à época, contava com o grande Carlos Castilho, ex- goleiro do Fluminense e da seleção brasileira. Para o filho do sêo Antonio Petrúcio isso pouco importava. Ele estava lá para cumprir o seu papel de profissional, sem se importar com os outros, “medalhões” ou não.
Ao lado do grande Castilho e de Oliveira, Jota Alves, João Tavares, Carlinhos, Paulo, Quarenta, Vila, Rubilota e outros, deu volta olímpica no estádio da Curuzu para comemorar a conquista do campeonato paraense. Mas registre-se a passagem do artilheiro pelo Palmeiras de São Paulo. Lá, por quase oito meses, conviveu com grandes jogadores, dentre eles o grande Ademir da Guia, uma das lendas do futebol brasileiro.
Mesmo sendo fastiano, defendeu com muita seriedade o Nacional, em 1967. A essa altura já contava com a companhia de Zequinha, o mais jovem dos irmãos. Daí para frente, o trio ficou inseparável. Mas, a passagem pelo clube da Saldanha Marinho não teve um desfecho feliz. O Nacional, no jogo decisivo, perdeu o título para o Olympico. A linha do P (Pratinha, Piola, Pretinho e Pepeta) não teve inspiração suficiente para dar alegria à torcida do clube do desembargador Joaquim Paulino Gomes.
No Fast, onde após pendurar as chuteiras, exerceu a presidência, Edson viveu fases distintas. Por dois anos seguidos, 1968 e 1969, ficou no quase. Foi vice-campeão em decisões contra o Nacional. E olha que o investimento feito pelo empresário Ézio Ferreira não era nada pouco. Mas como água mole em pedra dura tanto bate até que fura, a hora da volta por cima finalmente chegou. Mais investimentos, persistência, empenho e o sonho virou realidade. Edson, Antonio e Zequinha compartilharam os títulos com Zé Carlos, Marialvo, Maneco, Casemiro, Pompeu, Parada, Laércio, Afonso, Helito, Paulo, Adinamar, Zezinho e Holanda. O título de 1970 aconteceu na decisão com o Rio Negro. Em 1971, a Rodoviária foi a vítima.
Na pré-inauguração do estádio Vivaldo Lima, em 5 de abril de 1970, Edson e Antonio ajudaram a fazer a festa, no confronto entre as seleções do Amazonas e a do Brasil, onde a figura principal era o rei Pelé. Antonio jogou a preliminar, Edson a principal, ambos protagonistas de um espetáculo histórico do futebol brasileiro.
Não há dúvida que se estivesse nos gramados, nos dias atuais, onde qualquer perna-de-pau vira ídolo do dia para a noite, Edson, pelo seu futebol de inquestionável qualidade, conseguiria espaço em qualquer clube do eixo Rio-São Paulo. Sem qualquer exagero, por que não no exterior ?
Na época em que largou o futebol, em 1972, Edson da Costa Petrúcio estava com 28 anos. Logo depois, foi eleito presidente do seu
clube. Durante os seis anos em que presidiu o Nacional Fast Clube, enquanto seu irmão Antonio Piola exercia o cargo de treinador e Cláudio Cestaro era o diretor de futebol, viveu grandes alegrias. Na sua gestão o Fast derrotou o Fluminense em pleno Maracanã por dois a um. Época em que o futebol amazonense fazia parte da elite do futebol brasileiro.(Nicolau Libório é Procurador de Justiça aposentado, Ex-Delegado de Polícia, Jornalista Radialista) – 29.08.25