
Nas frequentes conversas com o meu amigo Cláudio São Paulo, nacionalino, empresário e mestre da fotografia, lembramos sempre de Flávio de Souza, o nome que será lembrado sempre como o autor do hino do Nacional. Músico, compositor, preparador físico e técnico de futebol, Flávio de Souza, nascido no dia 3 de abril em 1930, na cidade de Cruzeiro do Sul no estado do Acre, filho de Raimundo de Souza Filho e Lídia de Carvalho Souza, infância vivida na rua Luiz Antony- vizinho de Henrique Archer Pinto- pode ser visto como um homem cheio de versatilidade. Sobre o hino nacionalino, bastou uma folha de papel, uma caneta, uma cadeira, um violão e, aos poucos, no silêncio de uma noite de 1968, começou a cantarolar: “Nacional, Nacional, Nacional, teu glorioso pavilhão, nos encoraja para a luta com amor, fé e união” e por aí foi até concluir com “Tua estrela azul é símbolo de glória, avante Nacional para vitória.”
Aposentado pelo extinto Departamento de Estrada de Rodagens do Amazonas, DER-AM, Flávio contempla seu passado recheado de histórias interessantes. Em 1952, a convite de Jayme Rebelo, passou a fazer parte do regional que acompanhava os cantores que se apresentavam na Rádio Baré. Nesse tempo dividiu palco com Dalva de Oliveira, Herivelto Martins e outros famosos na saudosa “Maloca dos Barés”. Da música ao esporte foi apenas uma questão de tempo. De repente, o músico por paixão e desportista por convicção, transformava-se no comentarista esportivo da equipe esportiva da PRF-6. Tempos depois optou por comentar arbitragem, assunto que sempre despertou muita polêmica.
Sua primeira experiência como treinador aconteceu no juvenil do Rio Negro. Lá ele viveu uma situação desagradável, quando em substituição ao técnico Cláudio Coelho, assumiu o comando de um combinado Rio Negro e Fast, que levou uma tremenda goleada do poderoso time do São Paulo, em 1965. Seu irmão, o goleiro Mark Clark, à época com 19 anos, sem culpa, levou 4 dos 7 gols marcados pela equipe paulista.
A grande fase de Flávio foi vivida no Nacional. E tudo começou por mero acaso. Estava no estádio da Colina, comentando arbitragem ao microfone da Rádio Baré quando foi convidado por João Bosco Ramos de
Lima, narrador da Difusora, para integrar a comissão técnica do Nacional, na função de preparador físico. Bosco deixou evidente que seria o comandante do time do desembargador Joaquim Paulino Gomes. Flávio, após breve hesitação, topou a parada e ajudou o “Naça” a fazer uma campanha digna de todos os elogios, em 1968, empatando um jogo e perdendo apenas para o São Raimundo, que tinha o ataque formado por Melo, Airton, Santarém e Almir. Foi campeão com méritos inquestionáveis
Na ausência de João Bosco, que viajou ao Rio de Janeiro, Flávio teve que assumir o comando técnico no jogo amistoso que a equipe teria contra o Flamengo, que tinha no seu ataque Silva e Fio Maravilha. Como primeira providência conseguiu a garantia da diretoria de que em caso de vitória cada jogador receberia um generoso prêmio em dinheiro, o famoso “bicho”. Além disso, armou um esquema que anulou as principais peças do time visitante. Rolinha fazia lançamentos longos nas costas dos laterais Murilo e Paulo Henrique, a fim de que Zezé e Pepeta buscassem o caminho do gol.
Berto e Mário Motorzinho tinham como missão anular o ataque adversário. Jogando em contra-ataques, o campeão amazonense venceu o jogo com um golaço de cabeça de Pepeta, que vivia grande fase da sua carreira. E como promessa é dívida, o diretor Manoel Nogueira Maciel teve que abrir o cofre e fazer a alegria do time. No jogo revanche, dois dias depois, já sob o comando de João Bosco, infelizmente, o Mengo deu o troco com o placar de dois a zero.
Como funcionário do DER-AM, Flávio de Souza foi quase que coagido, em 1969, a deixar o Nacional para dirigir o time da Rodoviária. Ou aceitava o cargo ou passaria a ter problemas na repartição. Resolveu aceitar e, na estreia contra o Fast, conseguiu um honroso empate de 1 a 1. O Fast possuía um timaço montado pelo empresário Ézio Ferreira, enquanto a Rodoviária apenas debutava no profissionalismo.
Mas com muita paciência e grande habilidade conseguiu organizar a equipe e dar um certo trabalho aos adversários. O time da Rodoviária tinha como destaques o goleiro Virgílio (hoje exercendo a profissão de médico), o zagueiro Didel Garcia, além de Mário Jorge, Bastos, Muriçoca, Raimundinho, Somé, Gilberto e outros menos cotados.
Em 1970, o Olympico vinha enfrentando dificuldades financeiras, ameaçou deixar o futebol. Flávio foi chamado pelo diretor Hermínio e conseguiu retardar por três anos a pretensão dos dirigentes. Montou um time barato, aproveitando Ney, Floriano, Carneiro, Nivaldo, Silva, Luiz Darque, Ademir Maestro, Orlandino, Arlindo, Da Silva, Augusto, que haviam sido desprezados por outros clubes. Mas um erro de arbitragem, num jogo contra o São Raimundo, foi fato determinante para que o presidente Almério Botelho comunicasse à Federação Amazonense de Futebol que o time dos “cinco aros” estava saindo dos gramados.
Dirigindo o time do Rio Negro em 1974, pelo campeonato brasileiro, saboreou em pleno Mineirão, um empate sem gols com sabor de vitória, contra o Atlético Mineiro, comandado por Telê Santana. Poderia até ter vencido, mas o árbitro carioca José Aldo Pereira, para não contrariar os mineiros, deixou de marcar um pênalti legítimo a favor do Rio Negro. Foi a grande alegria do ex-treinador, que não é nenhum curioso.
Flávio tem história para contar. Afinal de contas estagiou com o grande Flávio Costa (técnico da seleção brasileira de 1950) e Carlos Alberto Parreira e, na prática, já provou sua competência. Com condições mínimas de trabalho e muita disciplina tática, o experiente e inteligente Flávio de Souza fez muito mais pelo nosso futebol que muitos técnicos rotulados.(Nicolau Libório é Procurador de Justiça aposentado, ex-Delegado de Polícia, Jornalista e Radialista – 03.04.2026)










