
Os poucos que me leem viram que, no último texto, busquei explicar as diferenças entre democracia e ditadura, em razão de um comentário sobre o assunto. Referi-me, então, às violências físicas e psicológicas praticadas no período de exceção contra pessoas que pensavam diferente dos detentores do poder. Ora, pois não é que daí adveio outro comentário? Desta vez, vazado em termos quase enigmáticos, mas muito sugestivos. Postou-se no Facebook esta abominação: “Morreram poucas pessoas”. De pronto, fiquei surpreendido por saber que sou lido também por bolsonaristas. Estranho, mas reconfortante, na medida em que permite inferir que alguma coisa de útil eles sabem fazer. E como posso eu ter certeza de que o comentarista pertence a essa corrente, digamos, de pensamento? Elementar, meu caro Watson! É o próprio chefe a organização criminosa que não se cansa de repetir que a ditadura deveria ter matado pelo menos trinta mil.
Na verdade, não se tem o número exato das vítimas da ditadura, entre torturados, assassinados e desaparecidos (no rol dos últimos, o nosso conterrâneo Thomás Meireles). Isso estabelecido, fica difícil ter ideia do que seria suficiente para satisfazer a sanha assassina do comentarista. Não me é dado saber, por exemplo, se os setecentos mil brasileiros mortos durante a pandemia atingem o patamar ideal. Talvez não, uma vez que parte desse número decorreu da ação direta da moléstia, ficando só o resto para a conta da ação nefasta do governo Bolsonaro.
Ao tipo de posicionamento manifestado no comentário tem-se dado o nome de “discurso de ódio”. Ao definir “ódio”, Houaiss diz ser “aversão intensa geralmente motivada por medo, raiva ou injúria sofrida”. Impossível para mim, saber se o indigitado comentarista foi injuriado por alguém, a ponto de lhe fazer brotar sentimento tão maligno. De qualquer forma, quem o teria injuriado? Não posso acreditar que a própria democracia tenha sido capaz de um comportamento desse jaez. A não ser que ele considere injúria o fato de ter liberdade para se expressar da maneira que entender, inclusive dizendo a atrocidade que disse.
Restam, de acordo com o dicionarista, o medo e a raiva. Pode ser que se trate do primeiro. Covardes, os bolsonaristas se apavoram com tudo que não seja a figura ignominiosa de seu líder, quando lhe era dado contar bravatas no cercadinho do Alvorada. Apeado do poder, levou consigo o jeito estúpido de governar, inclusive aquele que lhe permitia mangar das pessoas com falta de ar. Ria-se da própria perfídia, já que foi negacionismo terraplanista que levou ao óbito milhares de brasileiros.
Mas se eu tivesse que opinar, ficaria com a hipótese da raiva, a outra opção. De novo Houaiss, para explicar o que é isso: “sentimento de irritação, agressividade, rancor e/ou frustração”. Tenho que resta esclarecido o imbróglio. O comentarista, da mesma forma que os que como ele “pensam”, traduz tudo isso quando manifesta inconformismo com a suposta pouca eficiência do aparelho repressor da ditadura. De fato, é preciso muito rancor e/ou frustração para revelar tão sanguinário desejo.
E é essa gente que vem falando seguidamente de anistia. Para isso, não há pejo em recorrer a bíblias e a batons. Impossível. Se o ódio permanece ainda tão vivo nos corações bolsonaristas, nada mais resta ao estado democrático de direito que agir em legítima defesa. De outra coisa não se trata. Completaram-se apenas sessenta e um anos do fim do regime militar. Estaria o povo brasileiro disposto a retroceder para a época das sombras e da barbárie? Definitivamente, não.
A liberdade, permitam-me o lugar-comum, não tem preço. Os torturados, os assassinados e os desaparecidos pagaram muito alto por defendê-la, quando tudo eram trevas no céu brasileiro. Devemos a eles, quando nada por mero sentimento de respeito, o agradecimento mais profundo por sua coragem e dedicação. Há que entoar com convicção: DITADURA NUNCA MAIS. E complementar: SEM ANISTIA PARA GOLPISTAS.(Felix Valois é Advogado, Professor, Escritor e Poeta – [email protected] – 05.04.2025)