
Numa época em que poucos assimilavam o atletismo como o esporte básico, capaz de oferecer um perfeito condicionamento físico, o professor Geraldo Teixeira resolveu aceitar alguns desafios: enfrentar a ironia de muitos, a desaprovação dos pais e o preconceito de alguns. Sim, porque em Manaus, no início da década de 1970, praticar corridas, salto em extensão ou arremessar peso ou dardo era coisa pouco estimulante. Treinar corridas nas ruas, por exemplo, era coisa para louco. Mas foi com muita lucidez e nobres propósitos, que o filho do dr. Artur Teixeira Alves e sobrinho de Amadeu Teixeira, conseguiu projetar o nome do Amazonas no atletismo brasileiro.
O trabalho de Geraldo produziu muitos frutos. Se querem exemplos, muitos podem ser citados: Wellington Nóbrega, recordista sul-americano da prova 110 metros com barreiras; João Raimundo, o João do peso; Lindon Johson Pereira Campos, vice-campeão sul-americano de 110 metros com barreiras e campeão do lançamento de dardo; Orlane Maria Lima dos Santos, campeã mundial de salto em altura na categoria juvenil e primeira atleta amazonense a participar dos Jogos Pan-Americanos, sendo a grande revelação do atletismo brasileiro, em 1983.
No início dos anos 1970, conheci Geraldo Teixeira por ocasião dos Jogos Universitários. Eu era aluno do curso de Direito e o professor Geraldo era o organizador das provas de atletismo da Federação Universitária de Desportos, isso no campo do estádio Geraldo Osório. Após meu bom desempenho na corrida dos 10 mil metros, fui por ele convocado para integrar a seleção amazonense universitária. E foi sob sua orientação que consegui saborear algumas vitórias e, principalmente, aprender que todo adversário, por mais inexpressivo que seja, deve merecer o máximo respeito. Geraldo não era apenas um técnico, era um excelente educador.
Poucos em Manaus tomaram conhecimento que o professor Luiz Geraldo Pontes Teixeira dirigiu a seleção brasileira de atletismo, no México e na Argentina, representou o Brasil em cursos para técnicos de alto nível, na Itália e no Chile. Todavia, se associarem o seu nome a evolução do atletismo, entenderão com maior facilidade o quanto o seu trabalho foi importante para o esporte do Amazonas. Com poucos recursos, muita improvisação e uma grande força de vontade de superar as inúmeras dificuldades, deu um grande salto em busca do seu ideal.
Em vida, Geraldo falava com entusiasmo das conquistas dos seus atletas, salientando, inclusive, que o mérito não era seu, mas do próprio atleta que decidia aceitar com seriedade os ensinamentos ministrados. Simples na sua maneira de falar, dizia que melhor poderia ser se o atletismo fosse observado com maior sensibilidade pelas pessoas que têm capacidade e condições para ajudar. Para não cometer injustiça, fazia questão de ressaltar a posição do empresário Saul Benchimol, que resolveu adotar o atleta João do Peso, uma das grandes revelações do início dos anos 1980. Lembrava, também, o importante apoio oferecido pelo empresário Marcílio Junqueira, da CCE; José Lopes, da Casa Nova. Melhor seria, dizia Geraldo, que outros empresários pudessem ajudar. Só o esporte do Amazonas sairia ganhando.
Formado em Economia e Educação Física, professor e pesquisador da Universidade do Amazonas, técnico das seleções da SEDAM, diretor técnico da Federação de Atletismo, confessava que por influência da mãe, dona Ester, chegou a sentir ódio de futebol. Justificava as razões: “o papai era presidente do América. Ele tirava dinheiro que poderia servir para o conforto da família e jogava no futebol. A minha mãe reclamava, mas o velho era fanático pelo América”.
Na infância, Geraldo foi levado pelo pai ao Parque Amazonense para ver o América jogar. Não se entusiasmou. Já rapaz, passou a colaborar na parte social. Nessa época a sede do América ficava na rua Silva Ramos, no final dos anos1960, onde ajudou a promover, no período carnavalesco, o Baile do Terror, Baile das Debutantes, Festa da Rosa de Maio e, ainda, dava apoio ao grupo de teatro, que era coordenado por Gerson Albano. Depois disso, largou tudo e decidiu correr para o atletismo contra a vontade do pai, que esperava contar com a sua colaboração no América e contrariando dona Ester, sua mãe, que não queria vê-lo fanático por atletismo como o pai era pelo futebol do América. Aliás, só para contrariar, Geraldo era rionegrino declarado.
O início de tudo aconteceu no antigo estádio General Osório. Primeiro com atletas universitários, uma turma mais adulta. Depois, com paciência e muita dedicação, começou a reunir gente nova. Moças e rapazes, na faixa de 14 a 22 anos, compareciam todas as tardes, com impressionante assiduidade, para cumprir com boa vontade as orientações de um técnico otimista, que sonhava em tornar realidade o que muitos consideravam impossível. Aquecimento muscular, seguidas repetições de exercícios, muitas voltas na maltratada pista, saltos, arremessos, suor, muito cansaço. Será que valia a pena ? Geraldo achava que sim. Ele tinha razão. E todos perceberam que ele estava certo quando os resultados começaram a aparecer. Quando as primeiras medalhas começaram a surgir nos peitos dos seus pupilos, nas competições regionais, ele achou que era pouco. E partiu em busca de vitórias mais consagradoras, que aconteceram em razão de sua persistência, da disciplina imposta e, principalmente, da dedicação dos atletas.
Como atleta, Geraldo nunca foi brilhante. Jamais esteve no degrau mais alto do pódio. Mas diante do importante trabalho que realizou no decorrer de muitos anos, plantando e colhendo excelentes frutos da sua abnegação, o seu passado de razoável atleta serve apenas de simples ilustração. Desprovido de vaidade, egoísmo, conseguiu ver nos atletas revelados um objetivo atingido.
Geraldo teve muitas alegrias no atletismo, mas a maior de todas aconteceu quando o Amazonas ganhou o primeiro troféu por equipe nos Jogos Escolares Brasileiros, no feminino. Conseguiu a terceira posição na classificação geral com apenas seis atletas. Foi um resultado formidável.
Geraldo tinha a convicção que toda pessoa tem uma missão a cumprir na terra. E por acreditar na juventude e entender que o esporte é uma forma de conduzir os jovens por caminhos sadios, teve uma passagem marcante pela vida. Não foi apenas um desportista. Foi, sobretudo, um cidadão, cujo exemplo merece ser seguido.(Nicolau Libório é Procurador Justiça, Jornalista e Radialista – [email protected])