HISTERIA ANTICOMUNISTA – Por Felix Valois

ARTIGOS/Advogado Felix Valois(AM0

Ocorreu pouco antes do golpe de 1º de abril de 1964. Era uma época em que as forças do obscurantismo se uniram de forma avassaladora contra o governo do presidente João Goulart. Jango era “comunista” e queria transformar o Brasil em Cuba, lembrando que, apenas cinco anos antes, Fidel tinha chegado ao poder na ilha. Mas o incidente da Baía dos Porcos já tinha ocorrido, assim como a crise dos mísseis soviéticos. Aqui, o reacionarismo estava espevitado. Não lhe era possível suportar que o governo buscasse implantar as reformas de que o país necessitava. A TFP estava nas ruas, com seus estandartes e propaganda fascistas e os militares iniciavam a movimentação para a quebra do estado de direito.

Pois muito que bem. Passava eu em frente a uma igreja. Era um fim de tarde de domingo e, parece, tinha acabado a missa. Na entrada do templo, um grupo de senhoras conversava e não pude deixar de escutar que o tema era, nem mais, nem menos, a necessidade de proteger o país da ameaça vermelha. Uma delas trazia um terço na mão e ainda não se havia desvencilhado do véu, que, então, era obrigatório, para as mulheres, durante a celebração do ritual católico. Nossa heroína, colocando as mãos em postura de prece, arregalou os olhos, ergueu-os para o céu, e disse, com visível e incontrolável emoção, algo assim: “Só peço ao Senhor que, se ocorrer uma invasão comunista, seja eu a primeira a ter o peito varado por uma bala desses bárbaros”. A reação foi em cadeia: todas as do grupo lançaram suas candidaturas a mártires dos assassinos rubros. Fui-me embora e, embora passados mais de sessenta anos, jamais consegui esquecer aquela manifestação histérica, fruto da desinformação e da ignorância.

Pelo visto, o Senhor não atendeu à súplica de suas fiéis devotas, eis que não veio a invasão, mas veio o golpe. E os tão apaixonados anticomunistas tiveram que suportar vinte e um anos de uma ditadura cruenta e sanguinária. Em nome da preservação da “democracia”, os ditadores suprimiram direitos fundamentais do ser humano, inclusive o do “habeas corpus”. Homens e mulheres eram presos por simples suspeita e a arbitrariedade não conseguia nem mascarar a quebra do devido processo legal. Na calada da noite e em sórdidos porões, a tortura, na sua forma mais macabra, era praticada pelos títeres do regime. Brasileiros morreram ou foram “desaparecidos”. De muitos deles nenhum traço restou, com foi o caso de nosso conterrâneo Thomás Meireles. Sabe-se que foram enviados para os reinos de Netuno. Mortos, ou ainda moribundos, eram transportados em veículos aéreos militares e simplesmente largados no meio do oceano Atlântico.

Na minha boa-fé, tinha para mim que essa hediondez estava confinada às páginas da História. Não me era dado imaginar que alguém, por mais desprovido de inteligência que fosse, pudesse sentir saudades de tempos tão plúmbeos. Não foi a primeira vez que me enganei. Ainda esta semana, vi, na internet, uma postagem de homenagem à ditadura. Tive que olhá-la várias vezes para poder acreditar que aquilo partiu de um ser humano. Simplesmente pavoroso!

Contra todo o bom senso, estão de volta os mesmos sintomas daquela histeria de que cuido. Outra coisa não é, por exemplo, a manifestação de quem aplaude Trump e chega mesmo a pedir que ele invada o Brasil. Loucura ou imbecilidade? Ou das duas coisas juntas? Não sei, mas o certo é que não pode estar no domínio pleno de suas faculdades mentais o indivíduo que não consegue entender o verdadeiro papel desse norte-americano tresloucado, que ameaça o mundo com a sua psicose belicista.

Aqui, nos domínios tupiniquins, tentou-se outro golpe. Estão na cadeia os responsáveis pela irresponsável aventura. Mas os seguidores do obscurantismo não se cansam da faina de endeusar a figura central do complô e de pretender que seu herdeiro (igual ao pai ou pior do que ele) assuma o poder, mais uma vez para “preservar a democracia”. Quanta tolice! Diz o vulgo que “o pior cego é aquele que não quer ver”. Em sendo verdadeira a afirmativa, não vai adiantar distribuir bastões brancos para facilitar a movimentação dessa gente. É cívica a escuridade em que vivem e, para superá-la (se é que é possível), só lições primárias de amor fraternos e de respeito à humanidade.(Felix Valois é´Advogado, Professor, Escritor e Poeta – felix.valois@gmail.com) – 11.04.2026)