
Essa história de que quem é bom já nasce feito é totalmente improcedente. O ex-zagueiro do Fast, Hosanah Florêncio, está aí para provar que o homem é o grande arquiteto do seu próprio destino.
Nascido em 15 de agosto de 1938, na ilha do Jacurutu, município de Iranduba, à época distrito de Manaus, chegou a capital amazonense com o propósito de estudar. Mas, só não comeu o pão que o diabo amassou porque quem anda com Deus não tem medo de assombração. Logo conseguiu o primeiro emprego na Padaria Universal, na rua Frei José dos Inocentes. Como a Universal foi devorada pelo fogo, arranjou uma vaga na Panificadora Vitória, na Eduardo Ribeiro e, logo a seguir, na Padaria Biju, na avenida 7 de Setembro. Literalmente colocou a mão na massa, no ofício de bolacheiro, como ele mesmo faz questão de ressaltar.
-Eu trabalhava na fabricação de bolachas, por isso eu era bolacheiro, trabalhava de dia. Os padeiros trabalhavam à noite.
Realmente não era uma doce vida. Mas a vida só é dura para quem é mole. Após essa primeira experiência, percebeu que teria que digerir situações bastante salgadas. Conseguiu um emprego na Usina Rian, na rua Floriano Peixoto, tendo como tarefa carregar sacos de sal.
-O sal chegava em estado bruto e precisava ser moído. Eu tinha como dever passar o dia carregando sacos de sal até o moedor. Depois esse sal, em condições de uso, era embalado e distribuído no comércio, que vendia para o consumo doméstico.
O filho do agricultor João Florêncio e da dona de casa Maria Florêncio de Meneses sempre foi muito disposto. Não tinha medo de enfrentar o batente do dia a dia. Topava qualquer tipo de trabalho, desde que fosse honesto. E foi assim que aprendeu o ofício de marceneiro, especializando-se na confecção de “cadeiras de palhinha”.
Para alicerçar os seus sonhos, apreendeu a ler e a escrever aos 16 anos, graças a paciência e aos métodos pedagógicos da professora Maria, responsável pela alfabetização de várias gerações.
– A professora Maria me permitiu observar o mundo de forma diferente. Era uma grande educadora. Ela era mãe do ponta esquerda Zezinho e do meia
direita Juju, ambos do Educandos, clube dirigido pelo Zulândio Pinheiro. Depois passei a estudar no Grupo Escolar Machado de Assis. Fiz o exame de admissão e ingressei no Colégio Estadual Pedro II, Mas antes eu passei pela Escola Rui Barbosa, do professor Hamilton. Fiz o curso pedagógico no Instituto de Educação e, logo a seguir, ingressei na Faculdade de Direito, concluindo o curso em 1969.
Hosanah explica que as duras tarefas e as dificuldades do cotidiano não diminuíam a sua vontade de ganhar uma vaga no time de aspirantes do Fast Clube. Morando na Vila Jacinto, na rua Duque de Caxias, procurou o professor João Liberal, no campo da Escola Técnica Federal, para pedir uma chance.
Liberal, conceituado professor de artes gráficas e respeitado técnico de futebol, era muito objetivo. Para ele “quem sabia jogar, jogava e quem não sabia, assistia”. Hosannah chegou e jogou. No início no time de aspirantes, nas disputas preliminares, que antecediam aos jogos principais. Eram os famosos jogos “esfria sol”, que revelavam muito jogadores para o futebol amazonense.
No Fast, além da oportunidade oferecida por Liberal, conseguiu a simpatia do presidente José do Valle, que era diretor da empresa de navegação SNAPP. Em razão de tudo isso, ganhou um emprego. Mas ninguém tente imaginar excesso de generosidade. Para melhor entender, que o emprego seja entendido como trabalho, muito trabalho.
-A empresa era proprietária de embarcações, as famosas “chatinhas” que eram movidas por rodas com palheta na popa. Eram grandes clientes dos portos de lenha. Lembro que a Teresina, a Sorocaba, Inca e outras faziam viagens para o alto Juruá e baixo Amazonas. O trabalho era pesado, eu e outros empregados tínhamos que fazer a limpeza dos porões, após a chegada das lanchas a Manaus. Era muita sujeira. Não era raro a retirada de tartarugas, iaçás e tracajás mortos.
Quando menos esperava foi, juntamente com Cesário e Pereirinha e mais alguns, promovido ao elenco principal do time tricolor. Entretanto a possibilidade de se firmar como titular não era nada animadora. O que fazer? Respostas simples: ter paciência, treinar muito e aguardar a vez. Ora substituía Purgante ou Jonas, na zaga. Em outras ocasiões tinha a missão de substituir Zezinho Casa Nova ou Orleans Nobre, na frente da zaga fastiana.
-Zezinho Casa Nova era fabuloso. O verdadeiro craque. Jogava com elegância, técnica refinada, segurança e muita lealdade. Quem viu o Falcão,
da seleção brasileira, pode ter uma ideia do que foi Zezinho. Tive o prazer de jogar com ele.
Hosanah Florêncio foi campeão pelo Fast em 1960, na decisão com o América, na melhor de três pontos (naquela época a vitória só valia dois pontos), venceu a primeira por 3 a 1, com gols de Vitorino, Português e Dadá, e a segunda por 2 a zero, com dois gols de Português. O time base formava com Negão, Purgante, Jonas, Zezinho Casa Nova e Jofre; Rosas e Marcelo; Dadá, Vitorino, Português e Paulo Lira. Jogaram ainda Hosanah, Edmilson, Padeirinho, Rosalvo Picanço, Cesário, Almir, Orleans e Nego.
Na metade dos anos 1960, já casado, teve rápida experiência no magistério primário, exercendo a atividade de professor primário no grupo escolar Carvalho Leal, no bairro de Cachoeirinha. Foi servidor da Câmara Municipal de Manaus, na condição de extranumerário, vínculo empregatício semelhante o atual temporário.
Em 1972, aprovado no concurso de provas e títulos, ingressou na magistratura e passou a atuar nas Comarcas de Eirunepé e Humaitá. Promovido em 1979 para a entrância da capital, foi titular em Vara Criminal, Fazenda Pública e Família, exercendo, ainda, o cargo de diretor do fórum. Em 1995, após 23 anos como Juiz de Direito, foi promovido ao elevado cargo de Desembargador. Como Juiz mais antigo da carreira, exerceu o cargo de Prefeito de Manaus. Como Desembargador, na presidência do Tribunal de Justiça, assumiu o cargo de Governador do Estado.
Como zagueiro, no seu querido Fast Clube, sempre procurou jogar com seriedade, serenidade e muita lealdade. Mas não hesitava em ser ríspido, quando necessário. Tinha repertório para qualquer ocasião. Sabia impor respeito na área. Não tinha medo de cara feia. Como magistrado não conseguiu ser diferente.(Nicolau Libório é Procurador de Justiça aposentado, ex-Delegado de Polícia, Jornalista e Radialista) – 10.04.2026










