Origem do Futebol – Por Nicolau Libório

Artigos/Nicolau Libório(AM)

Vale a pena uma viagem no tempo em busca das origens do futebol. É bom salientar que por volta do ano 4500 antes de Cristo, os japoneses já ensaiavam os primeiros toques na pelota. O kemari, jogo muito parecido com o nosso futebol era disputado na terra do sol nascente pelos nobres da corte imperial. Era praticado com as
mãos e com os pés e a bola era feita de fibras de bambu. Na diversão dos nobres, gente do povo não tinha vez. Por isso, os escravos que ficavam pelo lado de fora de uma cerca que delimitava o campo, funcionavam como gandulas, na reposição da bola para a
continuação do jogo. Para os nobres, povo é povo.

Na China, alusão sobre o tetravô do esporte das multidões remontam ao ano de 2500 antes de Cristo e sua criação é atribuída a um certo imperador chinês que atendia pelo charmoso nome de HUANG-TSÈ. É claro que sua pretensão era treinar soldados, mas quando ele abriu os olhos (?) a sua ideia já havia sido assimilada pelos chineses peladeiros. O futebol da época que era chamado de TS’U CHU era disputado com uma bola de couro redonda, recheada com cabelo e crina. O jogo exigia habilidade, pois a bola não podia cair no chão. Dá para perceber, então, que jogador do tipo cintura-
dura não teria muita chance de jogar. A trave da época, onde deveria acontecer o lance mais emocionante, o gol, eram duas estacas fincadas no chão e ligadas por um fio de seda.

Na antiguidade grega, 800 anos antes de Cristo, na cidade-estado de Esparta, surgiu o epyskiros e a bola era denominada spahiromachia, nome nada fácil para as narrações dos locutores esportivos. Para chutar essa pelota, que na verdade era uma bexiga de boi, recheada de areia, o jogador não precisava ser um craque. Tinha era que ter força nos pés, sobretudo porque na época ainda não haviam inventado chuteiras, material esportivo indispensável nos dias atuais. Cada equipe era integrada por quinze jogadores e os jogos faziam parte de treinamentos militares nas casernas.

Cem anos antes de Cristo, surgia em Roma o harpastum, considerado o primeiro futebol jogado com esquema preestabelecido. Era disputado sob regras rígidas, que eram levadas em conta tanto para a disputa, assim como para o posicionamento dos jogadores dentro de campo. A disputa transcorria com uma bola de bexiga de boi coberta por uma capa de couro, chamada de follis. O jogo era disputado com os pés, num campo retangular, com uma linha divisória e duas linhas de meta. Os jogadores lentos, aqueles que corriam com o freio de mão ligado, jogavam na linha de meta
chamada de locus stantium. Os mais fortes, ágeis, ligados nos lances, jogavam no ataque. Os medicurrens, isto é, os meios campistas, tinham a missão de fazer o trabalho de ligação entre defesa e ataque.

Supostas influências latinas na Gália, território que ocupava a atual França, Bélgica, Suiça e parte da Alemanha e Itália, teriam ocorrido 50 anos antes de Cristo, com uma modalidade esportiva com grande semelhança ao futebol praticado atualmente no mundo. Era chamado de soule ou choule e jogado apenas pelos membros da nobreza. A verdade é que o futebol foi virando paixão. Ganhou tanto prestígio que em 1314, o rei inglês Eduardo II resolveu dar um basta, proibindo a disputa de jogos, sob a alegação de que os jovens estavam descuidando do arco-e-flecha, esporte bem útil a uma nação que vivia em permanente clima de guerra. O assunto foi levado tão a sério que Shakespeare, na sua obra Rei Lear, chegou a renegar “o violento jogo de origem bárbara”. Em parte, ele tinha uma certa razão, porque na Idade Média, o jogo era disputado por um número ilimitado de jogadores que, na disputa, usavam de meios
desleais, como socos, rasteiras, pontapés e até pauladas. O jogo era realmente um horror.

O calcio fiorentino foi decorrente de uma guerra contra Florença, importante centro econômico italiano. Sitiada pelas forças do príncipe de Orange, em 1529, duas forças políticas fiorentinas decidiram acabar com uma antiga rixa por meio de um jogo de bola. De um lado o time de Séglio Antinori; como adversário, a equipe de Dante Cantiglione, o primeiro todo de verde e o segundo todo de branco. O resultado do jogo, que durou horas, foi a paz interna entre os dois grupos políticos. O esporte fez tanto sucesso entre os nobres, que os papas Clemente VII, Leão XI e Urbano VIII resolveram
aderir.

O futebol da era moderna nasceu mesmo na Inglaterra. Os partidários do rei Carlos II, que viviam refugiados na Itália em razão da república instaurada por Oliver Cromwell, foram seduzidos pelo calcio. Restaurada a monarquia, os amigos do rei retornaram da Itália com o propósito de implantar para valer o futebol. E o grande
momento foi o jogo disputado entre os servos do rei Carlos II e os do Conde D’Albemarie. A turma do Conde saiu vencedora e, por isso, foi generosamente premiada pelo rei. Estava começando a fase romântica e civilizada do futebol.

Muitos já sabem que foi o paulista Charles Miller, filho de pai inglês e mãe brasileira quem introduziu o futebol no Brasil. O garoto foi concluir seus estudos na Inglaterra e quando retornou, em 1894, não trouxe apenas um diploma. Trouxe bola, apito e até uniforme, além da experiência como centroavante da equipe do condado de
Hampshire. Com pai rico, Miller tinha tempo para treinar e tornar-se o melhor jogador brasileiro, pendurando as chuteiras em 1910. Também foi árbitro até 1914, quando decidiu sair de cena.

A seleção brasileira disputou o seu primeiro jogo no dia 21 de julho de 1914, nas Laranjeiras, contra o time inglês Exerter City, vencendo por dois a zero, com gols de Osvaldo Gomes e Osman. Mas o jogo considerado como oficial pela FIFA só aconteceu no dia 20 de setembro de 1914 e o Brasil perdeu para a Argentina, em Buenos Aires, por três a zero. A rivalidade com a Argentina continua até hoje.

No começo do século passado, negros não tinham a menor chance nos clubes brasileiros. Somente em 1918, em razão da forte pressão da imprensa, a Federação Brasileira de Sports resolveu acabar com o preconceito. Sorte nossa, pois afinal seria burrice desperdiçar o talentoso futebol de Pelé.(Nicolau Libório é Procurador de Justiça Aposentado, Ex-Delegado de Polícia, Jornalista e Radialista – 26.12.25)