PARA HUGUETTE E DÉLCIO – Por Felix Valois

Artigos: Advogado Felix Valois(AM)

Em 1996, meu filho Alfredo, então com vinte e quatro anos, sofreu um acidente de trânsito da maior gravidade. No curso da intervenção cirúrgica a que foi submetido, teve uma parada cardíaca. Ressuscitado só na terceira tentativa, ficou em coma por uma noite inteira. Foram as doze horas mais terríveis da minha vida. Os médicos foram muito sinceros e objetivos: impossível saber se a situação era reversível e, em caso positivo, qual seria a condição mental do paciente após o retorno à consciência. Dá para entender a dimensão da angústia e da ansiedade: meu filho poderia morrer ou virar um vegetal. Felizmente nenhuma das duas coisas aconteceu e Alfredo é hoje um respeitado ortopedista.

Por que, então, trago à tona episódio tão cruel? Simplesmente para poder dizer a Huguette e a Délcio que tenho a condição mínima de compreender a imensidão de sua tristeza e de sua dor. Perderam eles um filho no esplendor da juventude. Vinte e sete anos tinha o rapaz. Talentoso e gentil, toda uma vida se estendia à sua frente. De repente, o nada. Morreu abruptamente, sem que nem o mais leve indício pudesse levar a imaginar desfecho tão trágico. Não pode haver coisa mais estúpida, massacrante e brutal do que isso. Inverteu-se a ordem natural das coisas e isso, por si só, já é causa de espanto.

Diz-se que a palavra “saudade”, como a entendemos, só existe em nossa língua. As tentativas de lhe dar conteúdo são as mais variadas e dependem da visão do intérprete. A canção diz: “saudade, dor que é remédio/remédio que aumenta dor”, para acrescentar que “a saudade é calculada em algarismos também/distância multiplicada pelo fator querer bem”. Chico Buarque, com o lampejo dos gênios, foi incisivo: “saudade é arrumar o quarto de um filho que morreu”. Seja como for, pela ótica do matemático ou do poeta, não há como medir o tamanho da saudade dos pais que ficaram. Saudade que não se aplaca, que não se acomoda porque está sempre a espicaçar, principalmente por não nos conformarmos com o inexplicável. No mesmo diapasão, fico imaginando o estado de devastação em que se deve encontrar dona Cândida, a avó do jovem. Se “os netos são filhos com açúcar”, insuportável é o sabor da perda.

Não lhes vou falar de misticismos tolos e inócuos. Nem poderia fazê-lo porque há muito tempo deixei de lado, por considerá-los absolutamente inúteis, todos os detalhes de uma religiosidade insípida, repleta de lendas e apelos ao sobrenatural. Diante da tragédia humana há de importar mais, muito mais, que saibamos ser solidários com a dor alheia. Essa solidariedade se deve fundar num profundo sentimento de fraternidade, a partir do qual nos seja possível estabelecer que “somos todos iguais, braços dados ou não”.

Meu coração, pois, está confrangido pela dor, mas imensamente solidário. Ele é um repositório infinito de compreensão, do qual só hão de sair sinais que indiquem esse posicionamento ao lado dos que sofreram o baque definitivo e irreparável. Não tenho sabedoria para recomendar algo. Talvez fosse o caso de falar em paciência, mas esse é um atributo que exige tranquilidade. Restaria falar de coragem. Buscar toda a reserva dela e racionalizar que a vida só evolui através das contradições. E vida e morte nada mais são do que as óbvias facetas dos contrários.

Huguette e Délcio, sei que quaisquer palavras são inúteis. Nenhuma delas pode servir de lenitivo. Fica, porém, a tentativa. Não se sintam sós. Este ancião aqui ainda tem suficiente capacidade de entender que “a dor da gente não sai no jornal”. Mas que ela não se alimente da desesperança.(Felix Valois é Advogado, Professor, Escritor e Poeta – [email protected]) – 30-08-25