PATRIOTISMO E VIRALATISMO – Por Felix Valois

Artigos/ Advogado Felix Valois(AM)

O sujeito invade um país soberano, sequestra-lhe presidente e a direita lunática do Brasil solta fogos de artifício comemorando o glorioso feito. Pior: manifesta, sem nenhum escrúpulo, o desejo de que episódio idêntico aconteça em nosso país. É sandice demais e a frágil justificativa dos sandeus repousa apenas no argumento de que Maduro era um “ditador”. Que o fosse. Problema do povo venezuelano, tão maduro quanto o nosso e perfeitamente capaz de encarar e resolver suas próprias dificuldades.

Não me é dado atinar com qual é a noção de “pátria” que permeia a cabeça dessa gente. Ser patriota – parece-me elementar – não é só soprar vuvuzela e vestir uma camisa verde e amarela quando a seleção de futebol faz um gol na copa do mundo. Muito menos há de ser ficar genuflexo diante de um pneu de caminhão, entoando o hino nacional, ou se aglomerar na frente de quarteis, reivindicando o cometimento de um golpe de estado. Fora de questão está a invocação de seres de outro planeta por via da utilização de celulares.

Para se considerar patriota é indispensável superar pelo menos os degraus mais inferiores da estupidez e entender no mínimo o óbvio. Por exemplo: quem acredita que a terra é plana não pode amar sua terra natal, pelo singelo motivo de que não sabe nem em que mundo vive, sendo apenas uma coisa cósmica despida de razão e qualquer sensibilidade. Passa pela vida em brancas nuvens e, se for católico, nem para o inferno consegue ir porque ninguém deve castigar um idiota.

No domingo mesmo do sequestro, postei o seguinte: “O brasileiro que aplaude Trump não tem complexo de vira-lata. É o próprio vira-lata”. Não é preciso dizer que recebi catadupas de impropérios dos mais variados quilates. O mais comum foi a velha e cansada exortação para que eu vá “morar em Cuba”. Como é que alguém pode conceber e produzir tamanha asnice? Estou cansado (não é “canso”, entenderam, energúmenos?) de explicar a essa gente que o fato de admirar a casa do vizinho não me confere de direito de para ela me transferir. Simples questão de boa convivência.

Uma senhora (ou moça, não sei dizer) concluiu que, postando o que postei, eu sou um “velho gagá”. Assiste-lhe metade de razão. Estou a apenas dois meses de completar oitenta e três anos e a cada dia mais convencido de que era um gozador o infeliz que afirmou ser a velhice a “melhor idade”. Velho, portanto, sou (velhaco, não). Mas me reservo o direito de discordar do adjetivo com que a minha opositora me qualificou. “Gagá” seria o que, na minha infância, chamávamos de “caduco”. Esvai-se a memória, a escala do tempo fica confusa e passa-se para a fase em que a morte vai deixar alívio e não, saudades.

Felizmente, não cheguei a esse ponto. Tenho suficiente lucidez para entender os motivos que a levaram ao que ela imagina ter sido uma agressão e que, para mim, foi apenas mais uma besteira. Nunca leu uma página de ciência política (terá lido algum livro?) e acredita piamente que o seu deus, seja ele qual for, conferiu aos Estados Unidos o direito-obrigação de velar pela “democracia” mundo afora, colocando-lhes no peito a estrela de xerife do universo. Inspira-se, talvez, num debiloide que, em plena ditadura, pariu essa preciosidade: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.

E assim vai a nau. Tenho para mim que a energia motriz da empolgação direitista repousa numa esperança: a de que Trump, com a CIA, FBI e quejandos, venha libertar Bolsonaro da cadeia. Convenhamos em que ele não faria falta nenhuma ao Brasil e estaria na companhia ideal para um medíocre como ele. Até, porém, que Tom Cruise decida filmar esse novo episódio de “missão impossível”, o “atleta” vai continuar soluçando e batendo nas grades do cárcere aquela mesma cabeça da qual nunca saiu algo que prestasse.Que uivem os vira-latas.(Felix Valois é Advogado, Professsor, Escritor e Poeta – felix.valois@gmail.com) – 10.01.26