
Em 1958, após a meritória conquista da taça Jules Rimet, na Suécia, no surgimento de Pelé, os brasileiros cantavam com entusiasmo e orgulho a marchinha “a taça do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa, avante esquadrão de ouro, é bom no samba, é bom no couro”. Motivo não faltava para comemorar, pois estava deixando para trás o complexo de vira-lata, expressão criada pelo jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues. Chegava ao fim a sofrida mania de inferioridade, que atormentava a quase todos os 66 milhões de torcedores que habitavam o solo brasileiro. As angustiantes lembranças do monumental fracasso de 1950, na derrota para o Uruguai, no trágico Maracanazo, estavam ficando no passado.
Eu, já fui cronista esportivo profissional, vivi grandes momentos do esporte, sobretudo do futebol. Estive no ambiente da seleção brasileira, que contava com o inigualável Pelé, já sabia das dificuldades de uma preparação para um torneio mundial. Valho-me da fábula atribuída a Esopo famoso contador de histórias da Grécia “O velho, o menino e o burro”, também conhecida na versão do francês Jean de La Fontaine, no século XVII. Nessa fábula milenar fica demonstrado que é muito difícil agradar a todos.
O que mais se viu e ouviu, na fase pré-Copa foi o impiedoso massacre proporcionado pela militância raivosa de uma parte da crônica esportiva, que procurava encontrar defeito em tudo: no planejamento, em alguns jogadores e principalmente nas decisões que vinham sendo tomadas pelo técnico italiano Carlo Ancelotti.
A convocação de Neymar foi o forte combustível para que os críticos, intelectualmente desonestos, aumentassem a artilharia contra tudo que estava sendo feito. Não resistiam a tentação de encontrar “piolho em cabeça de alfinete”. Ancelotti, mesmo sendo alvo de comentários grosseiros, bancou com forte personalidade as suas decisões. Neymar foi chamado, tratado, recuperado, prestigiado e preparado para enfrentar desafios, em uma competição que merece a atenção de todo o planeta terra.
O Brasil superou a fase de grupos numa posição de absoluto destaque e, para contrariar a vontade de todos aqueles que estão torcendo pelo insucesso, está conseguindo caminhar em busca do seu objetivo, com paciência, serenidade e estratégia. Se vai dar certo, aí é outra história, só o tempo se encarregará de responder.
Após a vitória no jogo contra a Escócia, alguém (uma repórter) indagou de Ancelotti se já se podia acreditar na conquista do hexa campeonato, e a resposta veio de forma monossilábica. Calma! E ele tem absoluta razão.
Calma ele tem em estoque. Provou isso no jogo contra o Japão quando, no intervalo, mesmo com um escore desfavorável, não perdeu a elegância. Pediu aos jogadores calma, pensamento positivo e espírito de luta. Tomou duas decisões que tiveram consequência no resultado final. Manteve em campo Casemiro e colocou Martinelli, que sequer alimentava esperança de ser escalado. Os dois fizeram os gols que garantiram a vitória. Os dois ajudaram a seleção japonesa a voltar mais cedo para casa.
Mas uma coisa é certa: a seleção ainda não cumpriu a sua missão. O adversário será sempre o próximo. E o que vem pela frente neste domingo é a Noruega, que já venceu quatro vezes e garantiu dois empates diante do time brasileiro. Porém, sempre haverá uma primeira vez. Tomara que a primeira vitória brasileira aconteça brevemente.
O equilíbrio emocional será necessário desde o primeiro minuto. E se os noruegueses fizerem retranca, que Vini Júnior, Endrick, Bruno Guimarães e Neymar resolvam o problema com dribles eficientes. A consciência impõe o dever do uso da paciência. Ninguém vence uma corrida com um simples salto. É preciso dar um passo de cada vez. O hexa não é apenas uma hipótese, pois o impossível desaparece quando o sonho se transforma em realidade, se torna possível.(Nicolau Libório é Procurador de Justiça aposentado, Ex-Delegado de Polícia, Jornalista e Radialista) – Manaus(AM), 03.07.2026










