
Amadeu Teixeira Alves tinha apenas 13 anos quando, ao lado do seu irmão Artur Teixeira e dos amigos Ilmar Oliveira, Wilson Guimarães, Taiguara Rebelo, José Augusto, Leontino e outros meninos, na Praça Dom Bosco, contribuiu para a criação do América, na noite de 2 de agosto de 1939. A ideia dos garotos só foi possível com a ajuda do padre Severo, diretor da Liga de Futebol do Dom Bosco, colégio em que Amadeu, seu irmão Artur, e os demais fundadores eram alunos.
Conheço a história porque sempre nutri forte admiração pelo trabalho de Amadeu. Lembro, por exemplo, que exatamente no mês de julho de 1965, conheci o técnico que à época ostentava um recorde de permanência no cargo. Fiz um amigo e dele ouvi vários relatos, alguns agradáveis, outros nem tanto. O mais desagradável: o governador Leopoldo Neves doou um terreno ao América, que pretendia construir sua sede no local onde está erguido o prédio do hospital Getúlio Vargas, mas Plínio Ramos Coelho, dirigente maior do Estado a partir de 1955, segundo Amadeu, acabou com o sonho ao determinar a desapropriação. Amadeu e Artur Teixeira bem que tentaram dialogar, mas Plínio não mudou de ideia e o América ficou no prejuízo.
Outra decepção: a perda do Parque Amazonense. Como arrendatário, desde a década de 1960, o América poderia explorar o pequeno estádio, antes hipódromo, pertencente a Maçonaria, por um determinado tempo, pagando uma certa quantia mensal, com a possibilidade de torna-se proprietário. Recebeu grande ajuda de Flaviano Limongi, fundador e presidente da FAF, para a restauração das gerais e arquibancadas e tudo ia de vento em popa. Mas a inauguração do Vivaldo Lima mudou tudo, pois o velho e tradicional Parque Amazonense deixou de ser utilizado nos principais jogos. Sem condições financeiras para honrar o pagamento do aluguel, logo após o jogo Rio Negro e Rodoviária, em 1973, fechou para sempre. Foi vendido ao empresário Francisco Osvaldino Castelo Branco, que passou adiante e, lamentavelmente, hoje só resta a lembrança do saudoso estádio da Linha Circular.
O América nasceu pobre, experimentou grandes dificuldades e, por essa razão, procurava resolver seus problemas com muita criatividade. Por exemplo: Amadeu possuía um caminhão tanque, no qual transportava e vendia querosene da marca jacaré. Nos dias de jogos não era nenhuma novidade a delegação “americana” chegar acomodada no velho veículo do treinador. E ninguém reclamava de nada. Pelo contrário, abastecidos de ânimo, os jogadores superavam todas as dificuldades com bom humor e grande disposição para correr os 90 minutos. É bom registrar que Amadeu só esteve longe do América por um breve tempo, quando foi chamado para dirigir o time da Rodoviária, em 1972.
Amadeu bem que tentou ser jogador, mas nunca passou de um limitado meia direita do segundo quadro. Por isso, resolveu ajudar o seu clube de outra maneira, passando a assessorar o treinador principal. E foi com Cláudio Coelho, técnico que levou o clube a conquistar 4 títulos consecutivos em 1951, 1952, 1953 e 1954, que aprendeu os segredos do ofício.
No América o lendário Amadeu foi praticamente tudo. Além de dirigir o time, também era diretor de futebol, roupeiro, diretor social, porteiro e só não foi massagista por falta de vocação.
O América que nasceu na Praça Dom Bosco, abrigou-se no porão do comércio da família Teixeira, num sobrado na rua da Instalação, transferindo-se posteriormente para rua Silva Ramos ao lado da fábrica de sabão da marca Tuxaua, já extinta. Depois, pelas muitas dificuldades para pagar o valor do aluguel do imóvel, passou a ter como domicílio a casa do treinador, no bairro Parque 10 de Novembro. O clube rubro sobreviveu durante décadas por amor e teimosia. E existiu enquanto Amadeu viveu. Ele que nasceu no dia 30 de junho de 1926 e despediu-se da vida com 91 anos, no dia 7 de novembro de 2017, foi um exemplo de dedicação, paixão, e amor pelo América. Com a despedida de Amadeu deste mundo, o América também saiu de cena, porque a vida de Amadeu sempre se confundiu com a vida do seu querido América Futebol Clube. Foram 87 anos de agradável convivência, 53 anos como treinador. Um recorde imbatível.(Nicolau Libório é Procurador de Justiça aposentado, Ex-Delegado de Polícia, Jornalista e Radialista) – 25.09.2026)










