
O artista plástico Sérgio Vieira Cardoso morreu neste sábado (3), em Manaus, aos 72 anos. Ele enfrentava problemas coronários e deixa uma trajetória de mais de cinco décadas dedicada às artes, com uma produção que atravessou pintura, fotografia, cinema, teatro e literatura.
Nascido em Manaus em 10 de março de 1954, Cardoso fez da própria cidade uma das principais matérias-primas de sua obra. O crescimento urbano, as mudanças na paisagem, personagens anônimos, desigualdades sociais, memória e destruição ambiental aparecem repetidamente em trabalhos que transitam entre o figurativo e o abstrato, com forte influência expressionista.
Autodidata nas artes plásticas, começou a pintar na década de 1970. Já em 1975 recebeu prêmio na Expo-Eucarístico, em Manaus. Dois anos depois realizou exposições no Teatro Amazonas e, a partir do fim daquela década, sua obra começou a circular fora do Estado.
Em 1979, participou da mostra Artistas Amazonenses, no Paço das Artes, em São Paulo, e realizou no Rio de Janeiro a individual “Mapas Compartimentis”. Na década seguinte, Cardoso passou por alguns dos principais circuitos das artes visuais brasileiras.
Dos salões nacionais à Pinacoteca
Sérgio Cardoso participou do Salão Nacional de Artes Plásticas, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1981, 1982, 1984 e 1985. Nesta última edição, recebeu prêmio de viagem pelo país. Também esteve no Salão Paulista de Arte Contemporânea, na Fundação Bienal de São Paulo, e conquistou prêmio aquisição no Arte Pará, em 1988.
Em 1989, levou a exposição “Lunamata” a São Paulo e participou de “Artistas Contemporâneos do Amazonas”, no Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap). Sua produção ainda integrou, anos depois, o projeto Rumos Itaú Cultural Artes Visuais.
A lista de exposições individuais ajuda a revelar a diversidade de sua pesquisa artística. Nela estão trabalhos como “Morte no Amazônia Ars Saloon”, “A Simples Passagem do Rio”, “Cultistories”, “Planos e Plenas Paisagens”, “Cinema de caixa e papel”, “Os sapatos do Cavaleiro da Lua”, “Krônicas”, “Asas/Florestas de Bizâncio”, “Cartas do Rio Negro” e “CINEMAMEU”.
Os títulos, muitas vezes construídos com grafias reinventadas pelo próprio artista, tornaram-se também uma característica de sua produção.
Manaus como personagem
Se havia um território permanente na obra de Sérgio Cardoso, era Manaus. A cidade não aparecia apenas como cenário. Era observada, desmontada e reconstruída pelo artista, que buscava tanto a Manaus preservada pela memória quanto aquela transformada pela expansão urbana.
Essa relação permaneceu até seus últimos trabalhos. Em 2025, ao completar 51 anos de trajetória, apresentou no ICBEU Manaus “Phoethicas do Vhão Urbhano – Ensaios visuais no expresso abandono do olhar”. A mostra reuniu as chamadas “photoplasthyas”, nas quais combinava fotografia digital, pintura e colagem para registrar resíduos, espaços esquecidos e elementos urbanos normalmente ignorados por quem percorre a cidade.
No mesmo ano, o Museu Amazônico da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) recebeu “Carthas do Rhio Neghro e outras coleções de pinturas e photoplasthyas amazonenses”. A exposição reuniu trabalhos produzidos ao longo de mais de 50 anos e retomou temas como paisagem, memória, natureza e identidade amazônica.
Cardoso dizia que aquelas obras guardavam não apenas imagens, mas lembranças e experiências acumuladas durante décadas de criação.
Pintura, fotografia e cinema
A separação entre linguagens nunca foi rígida em sua obra. Pintura, fotografia, literatura, teatro e cinema frequentemente se encontravam no mesmo trabalho.
Essa característica também está presente em “Papers & True Graphics – Pinturas e Fotografias”, sua mais recente exposição, aberta em setembro deste ano no Centro Cultural Palácio da Justiça, em Manaus. A mostra reúne pinturas, instalações fotográficas, narrativas visuais e uma área destinada à exibição de sua produção cinematográfica.
No audiovisual, Sérgio Cardoso dedicou parte importante do trabalho à preservação da memória cultural amazonense. Roteirizou e dirigiu documentários sobre artistas e personagens como Óscar Ramos, Roberto Evangelista, Joaquim Marinho, Jair Jacqmont, Hahnemann Bacelar e o crítico de cinema José Gaspar, além de nomes do esporte amazonense.
Para Cardoso, filmar esses personagens era uma maneira de impedir que desaparecessem junto com a Manaus em que viveram.
Teatro e formação
A dramaturgia foi outro braço de sua produção. Cardoso escreveu e dirigiu trabalhos para o teatro e teve peças reconhecidas no Festival de Teatro da Amazônia, entre elas “A Herança Maldita de Mercedita de La Cruz” e “Carmen de La Zone”.
Paralelamente à vida artística, formou-se em Direito pela Universidade Federal do Amazonas e aprofundou os estudos na área de administração cultural. Fez pós-graduação em Administração de Projetos Culturais no Rio de Janeiro e estudou administração de serviços culturais em Caracas, na Venezuela.
Também ocupou diferentes funções na administração cultural do Amazonas. Foi coordenador de assuntos culturais, superintendente da Televisão Educativa do Amazonas, superintendente cultural do Estado e diretor de espaços e departamentos ligados à cultura.
Em 2017, foi eleito para a cadeira nº 2 da Academia Amazonense de Letras, na sucessão do também artista plástico Moacir Andrade. No mesmo ano, recebeu o Prêmio Amigo do Museu Amazônico.
A passagem pela Academia foi, porém, apenas uma das dimensões de uma trajetória construída sobretudo pela imagem.
Durante mais de meio século, Sérgio Cardoso pintou, fotografou, filmou e escreveu a cidade em que nasceu. Das primeiras telas dos anos 1970 às experiências recentes com fotografia digital, permaneceu investigando a Amazônia e, particularmente, Manaus — suas mudanças, perdas, contradições, personagens e memórias.
Aos 72 anos, deixa uma obra extensa e espalhada por diferentes linguagens, construída a partir de um olhar que fez da cidade, repetidamente, cenário, personagem e matéria de arte.(FONTE: CULTURA/Plásticas: , cinema, fotografia, cultura amazonense/FOTO: Divulgação)










