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As manchetes do Bianor Garcia – Por Nicolau Libório

ARTIGOS/Dr, NICOLAU LIBORIO(AM)

Para quem não sabe ou não lembra, Bianor Garcia, nascido no município de Silves, jornalista conhecido, respeitado e às vezes temido, foi criador do Festival Folclórico do Amazonas, evento promovido e organizado pela empresa Archer Pinto, proprietária do matutino O Jornal e do vespertino Diário da Tarde. O Festão do povo acontecia no “estádio” General Osório, diante do quartel do Vigésimo Sétimo Batalhão de Caçadores, prédio onde hoje está instalado o Colégio Militar. O grande palco da cultura popular teve a sua primeira edição em 1957, com o incentivo de Gilberto Mestrinho, então prefeito de Manaus. Gilberto havia sido nomeado pelo governador Plínio Ramos Coelho, nome forte do Partido Trabalhista Brasileiro. O festival, que era o grande palco da cultura popular reunia cirandas, quadrilhas, tribos indígenas, dança do cacetinho e tinha como ponto principal as exibições dos bumbás Mina de Ouro, do Seringal Miri; Tira Prosa, do bairro Santa Luzia e Corre Campo, da Cachoeirinha.

Fiz essa abordagem, sem esquecer a preferência futebolística do Bianor. Ele era apaixonado pelo Rio Negro. E para ajudar o seu clube de coração, decidiu lançar o Galo Carijó, figura alegórica que foi apresentada à torcida alvi-negra no dia 19 de março de 1969, por ocasião do jogo Rio Negro e América, no Parque Amazonense. Como diretor de publicidade do clube, em parceria com o poeta Aníbal Beça, autor da música, lançou o hino “Galo Carijó”.

A minha convivência com Bianor aconteceu a partir de 1970, quando cheguei ao jornal A Notícia, que tinha a sua redação instalada em um prédio localizado na Praça Tenreiro Aranha, próximo ao saudoso Hotel Amazonas. O matutino que foi fundado pelo empresário Félix Fink, era dirigido pelo ex-deputado Andrade Neto, genro do proprietário da drogaria Fink. Andrade, em 1982, resolveu vender o patrimônio para o empresário José Moura Teixeira Lopes, que passou adiante para Francisco Garcia, em 1985.

Voltando ao Bianor, que era um craque em criar manchetes, não tinha tempo ruim. Quando não havia notícia que merecesse destaque, ele usava a criatividade. O importante era chamar a atenção do leitor. Ele transformava qualquer assunto banal em grande destaque na primeira página. Remexendo o meu baú de recordações, encontrei algumas pérolas:

Cachorro fez mal à moça. Um título que dava margem para interpretações maldosas. Mas na falta de registros de importantes ocorrências policiais, uma simples anotação no livro de entrada do pronto socorro de que uma jovem havia

passado mal pelo fato de haver comido um “cachorro quente” estragado, virou assunto importante.

Trepada Covarde- num banal acidente de trânsito com danos materiais, na esquina das ruas Joaquim Nabuco com Sete de Setembro, um caminhão FNM, o famoso fenemê abalroou e ficou sobre um fusquinha, deixando o pequeno veículo bastante amassado. Nada extraordinário para merecer tanto destaque. O que chamou atenção mesmo foi o Trepada Covarde.

Bateu no pai, levantou o pau para irmã e tentou dormir com a mãe, em três linhas ocupando quase toda a página principal. Resumindo o fato: num certo bairro de Manaus um rapaz , numa crise de descontrole, após ingerir generosas doses de cachaça e experimentar um cigarrinho proibido, chegou em casa e começou a aprontar, criando uma grande confusão. Primeiro agrediu o pai, em seguida ao ser admoestado pela irmã, tentou agredi-la com um pedaço de pau e, mais calmo, resolveu deitar-se onde sua mãe estava dormindo. O jovem endiabrado terminou preso na chefatura de polícia, cujo prédio era conhecido como o casarão da rua Marechal Deodoro.

Técnica Abunda – no mês de julho de 1975 estavam acontecendo os Jogos Estudantis do Amazonas. O fotógrafo João Pinduca Rodrigues, especialista nos melhores ângulos e detalhes, após a revelação das fotos, me chamou a atenção para uma delas: antes de um jogo de voleibol, as meninas da Escola Técnica Federal resolveram fazer uma rodinha no meio da quadra, abaixando as cabeças e abraçadas, procuravam praticar um ritual de união, buscando um alinhamento mental. Nesse simples gesto os bumbuns ganharam visibilidade. Aprovei a foto para o caderno de esportes e dei o seguinte titulo: abundância técnica nos Jogos Escolares. Bianor viu e resolveu, bem ao seu estilo, dar relevância à foto do Pinduca, publicando na primeira página, com a manchete: Jogos estudantis do Amazonas (numa linha fina) e abaixo, em caixa alta e em oito colunas, tascou Técnica Abunda. Foi um sucesso. Todos os exemplares foram vendidos.

Devo dizer que estou citando apenas alguns poucos exemplos das muitas manchetes do homem que deixou o seu nome registrado na história do jornalismo amazonense. Bianor Garcia despediu-se deste mundo aos 58 anos de idade, no dia 17 de janeiro de 1990.(Nicolau Libório é Procurador de Justiça aposentado, Ex-Delegado de Polícia, Jornalista e Radialista) – Manaus(AM) 04.09.2026