
No dia 9 de março de 1980, em razão da superlotação, o Vivaldo Lima, literalmente, tremeu. Além das 56 mil pessoas que pagaram ingressos, o estádio recebeu quase 70 mil torcedores para assistir ao jogo Fast e Cosmos. O evento foi organizado por Manoel Muniz (empresário) e Joaquim Alencar, com o apoio da Emantur, empresa de turismo do estado. Com os ingressos ao custo de 50, 100 e 500 cruzeiros, para gerais, arquibancadas e cadeiras especiais, dava para acreditar na possibilidade de grande sucesso financeiro. Mas a vultosa arrecadação de 5 milhões, setecentos e quarenta e quatro mil e cento e cinquenta cruzeiros só foi suficiente para pagar as despesas, que foram muitas. Se o interesse do povo foi grande, a soma arrecadada foi imensa, se a ousadia de alguns chegou ao ponto de buscar acomodação na marquise, a novidade foi a sensação de que a área das cabines de rádio estava tremendo.
Eu já exercia o cargo de delegado de polícia, mas ainda continuava fazendo comentários nas transmissões da Rádio Difusora, admito que nunca havia presenciado um evento tão prestigiado. Razões para o grande interesse dos amazonenses não faltavam. O Cosmos, clube norte americano, administrado pela Warner Comunications tinha no seu elenco grandes estrelas do futebol mundial, com destaque para Romerito, Sininho, Chinaglia, Beckenbauer, Carlos Alberto Torres e Pelé. O rei, por alguma razão qualquer, não veio para grande festa do futebol.
A expulsão de Carlos Alberto Torres, após discussão e ofensas ao árbitro- bandeirinha, ainda no primeiro tempo, não tirou o ânimo da multidão que disputava centímetros de espaço, no estádio que ainda não estava totalmente concluído. Ninguém reclamava, apesar da elevada temperatura provocada por um sol inclemente, pois o interesse pelo jogo era bem maior que o desconforto. Todos viviam a expectativa de observar o grande capitão da seleção alemã, Franz Beckenbauer, que sem nenhuma dúvida foi uma atração à parte, pelo seu estilo elegante e objetivo. No time do Fast, como reforço, estava Clodoaldo, campeão mundial pela seleção brasileira, em 1970, no México. O lado negativo foi o zero a zero, frustrando todos aqueles que esperavam um espetáculo de muitos gols.
Lembro que na noite do dia 8 de abril, por volta das 21 horas, véspera do jogo, no restaurante Signos, que ficava numa área atrás do reservatório do Mocó-vizinho do cemitério São João Batista- a Emantur revolveu promover um coquetel, com a presença de alguns jogadores do time visitante. Romerito, Chinaglia, Carlos Alberto Torres e Beckenbauer marcaram presenças. Permaneceram no local por quase 50 minutos e, acenando para algumas autoridades, dirigentes de clubes e jornalistas,
resolveram bater em retirada. Mas se até aquele momento tudo havia transcorrido de acordo com o manual, veio a desagradável surpresa. O ônibus que estava aguardando o grupo na área externa simplesmente deu prego. O motor não funcionou, deixando dirigentes e jogadores bastante aborrecidos, tendo que aguardar a chegada de um outro veículo para transportá-los até o hotel. O que me chamou a atenção foi a atitude do grande Beckenbauer, que serenamente e sem a menor cerimônia, decidiu sentar-se no meio fio para esperar o tempo passar, sem estresse. Não ficou nem um pouco abalado por ter que ficar sentado à beira do caminho.(Nicolau Libório é Procurador de Justiça aposentado, Ex-Delegado de Polícia, Jornalista e Radialista – Manaus(Am), 28.08.2026










