Início Artigos Amarildo, um ídolo esquecido – Por Nicolau Libório

Amarildo, um ídolo esquecido – Por Nicolau Libório

ARTIGOS/Dr-NICOLAU-LIBORIO(AM)

Acontecia a Copa do Mundo no Chile. Edson Leite, saudoso e consagrado narrador esportivo da Rádio Bandeirantes, não conseguia esconder a sua insatisfação com o desempenho da seleção brasileira, naquela distante tarde de quarta-feira de 6 de junho de 1962. O time dirigido por Aymoré Moreira não demonstrava capacidade para superar as dificuldades diante do escrete espanhol. Para piorar, para aumentar a angústia do consagrado locutor, a Espanha saiu na frente no placar, com um gol de Adelardo aos 35 minutos do primeiro tempo. Eu tinha 14 anos e já era apaixonado por futebol.

O time formado por Gilmar, Djalma Santos, Mauro, Zózimo e Nilton Santos, Zito e Didi, Garrincha, Vavá, Pelé e Zagalo, que havia vencido o México por dois a zero na estreia, empatado com a Tchecoslováquia em zero a zero, não conseguia se impor diante da equipe espanhola. Aquele placar adverso poderia eliminar a esperança de um bicampeonato.

Alguma coisa teria que acontecer para mudar o rumo dos ventos. E realmente aconteceu: Nilton Santos derrubou um atacante espanhol no início da grande área. A voz de Edson Leite ficou embargada. Pênalti que poderia determinar uma desclassificação ainda na fase de grupos. Entretanto, com a sua vasta experiência de muitos anos de estrada Nilton, malandramente, deu um passo para frente, saindo do lugar da ocorrência, fazendo com que o árbitro suavizasse a situação. Superado parte do problema, sem Pelé em campo, o time nacional precisava se reencontrar com o belo futebol que havia encantado o mundo quatro anos atrás, na Suécia. Pelé, em razão da grave contusão sofrida contra os tchecos, estava fora da copa. Acredito que foi o susto causado pela hipótese de ser punido com um pênalti que fez o time acordar.

Para a nossa sorte, Garrincha resolveu dar um chute na tristeza, livrou-se da letargia e, com ânimo renovado, decidiu assumir o comando da situação O ponta direita do Botafogo desencantou e começou a promover um desfile de dribles estonteantes, abrindo completamente a linha de zagueiros que até então se mostrava quase intransponível. Foi a partir daí que o substituto de Pelé conseguiu apresentar as suas credenciais. Garrincha driblava, cruzava, e Amarildo chegava para desnortear a defesa hispânica.

E assim, seguindo o ditado popular que “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” aconteceu a grande virada. Amarildo, com gols aos 27 e 41 minutos do segundo tempo, transformou-se merecidamente no grande herói da torcida. E se não marcou na vitória de três a um contra a Inglaterra e quatro a dois contra o Chile,

foi ele que assinalou o primeiro gol contra os tchecos, seguido de Zito e Vavá, na conquista do segundo título mundial. Ao vencer a Tchecoslováquia por três a um, o futebol brasileiro passava a ser respeitado em todo planeta, sem deixar dúvida que a ginga brasileira tem a capacidade de superar a forma “científica” de jogar dos europeus. Vejam que eu estou me referindo ao passado. Atualmente o nosso futebol arte anda sumido.

Mas o povo deseja saber agora por onde anda Amarildo. Resposta: hoje ele convive com o triste ambiente de um hospital, no Rio de Janeiro. Um ídolo não pode ser condenado ao esquecimento. Ele que, no futebol italiano jogou no Milan, Fiorentina e Roma, que formou na famosa linha do Botafogo ao lado de Garrincha, Didi, Quarentinha e Zagalo. Ele que ajudou o Botafogo a conquistar muitas vitórias. Ele que, lamentavelmente, já não lembra dos gols que marcou, das homenagens que recebeu, das grandes comemorações vividas, pois foram apagadas do seu cérebro, em razão do Alzheimer, está sendo vítima, no momento, da indiferença de muitos. São os dissabores da vida, infelizmente. Mas se Amarildo está com a sua memória comprometida, tenho certeza de que os verdadeiros botafoguenses jamais irão esquecê-lo. Ele merece ser lembrado sempre, pela vitoriosa trajetória profissional. O botafoguense autêntico não tem memória curta.(Nicolau Libório é Procurador de Justiça aposentado, Ex-Delegado de polícia, Jornalista e Radialista) -31.07.2026