
Se entre os amigos ainda estivesse, Flaviano Demasi Limongi, primeiro presidente da Federação Amazonense de Futebol, filho de dona Filomena e do italiano Vicente Limongi estaria completando 100 anos, neste 4 de maio. Carismático, ousado e empático, Limongi construiu em vida a imagem do verdadeiro homem de bem. Tive o privilégio de desfrutar da sua amizade, de caminhar com ele na fundação da Federação Amazonense de Futebol, de estar ao seu lado na pré-inauguração do estádio Vivaldo Lima e nos muitos eventos realizados por ele no período de 1966 a 1974. Em póstuma homenagem, vou tentar relembrar a trajetória do grande Patriarca.
Na distante década de 1930, num pequeno campo de areia localizado na rua Luiz Antony, próximo ao quartel do 27º BC, o garoto Flaviano fazia os primeiros ensaios com uma bola de cernambi, nas intermináveis peladas com os garotos da vizinhança. A casa da família Limongi, na avenida Epaminondas, ficava exatamente em frente ao estádio General Osório (hoje campo do Colégio Militar), local propício para que o filho do italiano Vicente alimentasse o sonho de se transformar em um goleiro tão bom quanto Hugo Guimarães, do Rio Negro, ou Zamora, da seleção espanhola. O que parecia sonho de repente virou realidade, pois além de conseguir ser tão bom ou melhor que o goleiro alvi-negro, foi surpreendido ao ser convocado para a seleção amazonense com apenas 15 anos de idade.
Flaviano Limongi sempre foi apaixonado por futebol. Por isso, após as aulas, no colégio Dom Bosco, e o expediente na sapataria Limongi (localizada na avenida 7 de Setembro, bem atrás da igreja matriz), não dispensava um gostoso “bate-bola”. Num determinado final de semana, no início da década de 1940, debaixo de uma mangueira resolveu apoiar a ideia para a fundação de um novo clube. Nascia o Tijuca, que durante seis anos participou das competições oficiais promovidas pela FADA. A façanha foi compartilhada por Mário Urofino, Zeca Urofino, Raspada e Carlos Almada. O Tijuca teve como sua primeira sede o porão da casa nº 223, na rua Luiz Antony, onde posteriormente, por muitos anos, residiu o jornalista Carlos Zamith. Mas a estreia da nova agremiação foi simplesmente desastrosa. Perdeu para o Nacional, no campo do Parque Amazonense, pelo impiedoso e elástico escore de onze a um.
Enquanto menino, aos domingos, Flaviano era levado pelo sêo Vicente para assistir aos jogos do Nacional, nos campos do Parque Amazonense ou do Luso. Mas na ora em que decidiu ser jogador de futebol recebeu um tremendo não. Diante da proibição, procurou dar o seu jeito. Arranjou um apelido para “driblar o pai” e evitar as costumeiras broncas. Sêo Vicente nem desconfiava que um tal Aymoré que fazia tanto sucesso no gol do Tijuca era o seu filho Flaviano, que saia de casa todo arrumado dizendo que ia assistir um filme no cine Odeon. No início deu para esconder, mas a fama do Tijuca não permitiu
que Aymoré durasse tanto tempo. Quem apareceu mesmo foi Limongi, considerado como um dos melhores goleiros da época. Sobretudo porque jogava ao lado de Darcy, Lupércio, Gióia, Mário Urofino, Dog, Cabral, Haroldo, Zé Luiz, Sidinho, Pedrinho, Linhares e de muitos outros craques.
Na juventude, Flaviano Limongi além de arrojado e eficiente goleiro, foi um dos mais aplaudidos apresentadores de programas de auditório. Ficou conhecido pelo pseudônimo de Fred, na “casa do Zebedeu”, na Rádio Difusora ao lado de Índio do Brasil e Zé Coió, este último conhecido nacionalmente. Como locutor esportivo, formou a primeira equipe esportiva, com Djalma Dutra, Luiz Saraiva, Bianor Garcia e Denis Menezes.
Além do futebol e do rádio, o jornalismo sempre fez parte da vida de Flaviano. Como articulista, criou as colunas “Passou Raspando” e “Bazar” (jornal A Crítica) sob o pseudônimo Willis. Na rápida passagem por Belém, onde serviu no Exército, assinou a coluna “Meu Cantinho”, no jornal Folha do Norte.
Após concluir o curso científico, no colégio Dom Bosco, Limongi ingressou na Faculdade de Direito, graduando-se em 1950, tendo como colegas de turma a desembargadora Nayde Vasconcelos, Aristófano de Castro, o desembargador Valmir Boná, Iran Caminha, Carlos Alberto Bandeira de Araújo, Manoel Otávio Rodrigues, Francisco Menezes e muitos outros profissionais que tiveram destaque na área jurídica. Formado em Direito, dividia o tempo entre o escritório de advocacia e a sapataria Limongi. Em 1959, atendendo convites de José Ribeiro Soares e de Henoch Reis, ingressou na Justiça do Trabalho, na Junta de Conciliação e Julgamento, presidida por Henoch. Anos depois, aposentou-se como Desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região.
Sempre de bem com a vida, Limongi foi um dos fundadores do Mocidade Clube, agremiação com objetivos recreativos. As reuniões aconteciam no balneário do sócio Júlio Seixas, onde eram “debatidos os problemas da nação”. Durante 25 anos, o bloco do Mocidade Clube formado por Miguel Jorge, Alfredo Tetenge, Andréa Limongi, Max Teixeira, Armando Lopes, Alfredo Linhares, Joaquim Loureiro, Ângelo Amorim, Mário Urofino, Raimundo Berucelli, Flávio Augusto, Mário Bittencourt Guimarães, Nelson Ribeiro, Almério Cabral dos Anjos e Luiz Cabral, fez muito sucesso na Eduardo Ribeiro, animando o carnaval amazonense, satirizando temas nacionais e as novelas. Dentre as sátiras mais engraçadas podem ser citadas “Ai, Maria”, “Sangue do meu sangue” e “Lago Hudson”. O maquiador do grupo era o desembargador Luiz Cabral, que ficava na retaguarda. Cabral nunca topou desfilar na avenida.
Limongi chegou à presidência da FAF em um momento de crise no futebol amazonense. Tudo começou quando o presidente da Federação Amazonense de Desportos Atléticos – FADA, Laércio Miranda, deu início a uma discussão com o fotógrafo Fernando Folhadela, no estádio da Colina, antes de um Rio-Nal, num certo domingo de 1966. A crônica esportiva, que na época era muito unida e forte, resolveu comprar a briga. João Bosco Ramos de Lima, José Augusto Roque da Cunha, Luiz Eduardo Lustosa, Belmiro Vianez, Arnaldo Santos, Carlos Zamith, Leal da Cunha, Irisaldo Godot, Luiz Saraiva, João dos Santos Pereira Braga, acharam que a resposta teria que ser dura. E a fundação de uma
nova federação seria um troco bem dado. Lembro que após o jogo, seguimos para o prédio da Rádio Rio Mar, que ficava bem atrás do estádio e em poucos minutos estava decidido que a FADA não mais teria a divulgação do seu campeonato nas rádios e jornais de Manaus. O nome de Limongi para a presidência da nova entidade foi lembrado por Belmiro Vianez e João Bosco Ramos de Lima e aprovado por todos nós. Limongi entrou na “guerra”. Artur Teixeira Alves, presidente do América, chegou a conversar com Laércio Miranda para que o desmembramento do futebol ocorresse de forma pacífica. Isso não foi possível por proibição estatutária, o que motivou ainda mais o movimento liderado pela Associação dos Cronistas e Locutores Esportivos do Amazonas. A FAF finalmente teve a sua fundação no dia 26 de setembro de 1966 e reconhecida oficialmente pela CBD no dia 21 de agosto de 1967, com a presença do Cel. Souza Carvalho, emissário da Confederação Brasileira de Desportos- CBD, no auditório do DER/AM. A CBD era presidida por João Havelange.
Como presidente da FAF, Limongi estimulou o governador Danilo Duarte de Matos Areosa a construir o estádio Vivaldo Lima, conseguiu incluir o Amazonas no Campeonato Nacional, trouxe para Manaus em 1972 uma das chaves da Copa Independência, também denominada de Mini-Copa, quando tivemos a oportunidade de ver aqui em Manaus as seleções do Peru, Iugoslávia, Venezuela, Bolívia e Paraguai. Trouxe também a seleção brasileira de Pelé, que foi tricampeã do mundo no México. Promoveu os campeonatos mais motivados em todos os tempos. Adquiriu e pagou a atual sede da Federação Amazonense de Futebol, e se mais não fez, foi porque decidiu, após 8 anos dedicados à FAF, dar mais atenção à sua família, que estava ficando em segundo plano. Ele foi o melhor entre os melhores dirigentes do futebol amazonense. O inesquecível amigo Flaviano Limongi merece homenagens e justos aplausos.(Nicolau Libório é Procurador de Justiça aposentado, Ex-Delegado de Polícia, Jornalista e Radialista.) – 01.05.2026










