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MOÇÃO IDIOTA – Por Felix Valois

ARTIGOS/Advogado Felix Valois(AM)

Já fui deputado estadual. Os amigos sabem disso, assim como sabem que não manifesto especial orgulho por ter sido. Apenas registro um fato. Eleito em 1982, exerci a função até 1986. Eram outros tempos e outra gente. De nossa bancada, relembro nomes como Francisco Queiroz, José Dutra, Beth Azize e Cleuter Mendonça. Na oposição, impossível esquecer Homero de Miranda Leão, José Belo Ferreira, Waldir Barros e Socorro Dutra Lindoso. As divergências eram inevitáveis, mas era perceptível que a maioria, de lá ou de cá, tinha efetivo compromisso com a coisa pública.

Produzimos algo de excepcionalmente marcante? Tenho que não. Era o começo do fim da ditadura e atuamos ainda sob a Constituição do regime autoritário. Se hoje é reduzida, a competência legislativa dos estados-membros era, então, ridiculamente pequena. Em compensação – e isso afirmo com a mais inquebrantável convicção – não produzimos nenhuma besteira monumental, dessas que estão, desde o nascedouro, destinadas a integrar o folclore político.

O mesmo não posso dizer do que se passa hoje. Os nossos ilustres parlamentares vêm de aprovar uma coisa a que chamaram “moção de aplauso ao governo dos Estados Unidos da América, pela inclusão do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital na lista de organizações terroristas”. Você acredita nisso, meu escasso leitor? Confesso que a mim me custou ter tamanho disparate como verdade e, não fosse pela honestidade da fonte, ainda estaria pensando tratar-se de mais uma dessas tais de “fake news”, tão na moda ultimamente.

Duas coisas me chamaram a atenção. De pronto, o claro, óbvio e inquestionável desvio de função. Pagos com o dinheiro dos nossos impostos, os deputados não têm o direito de se dar à pachorra de passear em terrenos outros que não estejam direitamente ligados aos interesses do Estado do Amazonas. Ao depois, a exposição, a céu aberto, do viralatismo mais abjeto, fruto, talvez, do complexo de inferioridade frente ao império do norte.

Fosse-me dado acrescentar algo, falaria, ainda, da absoluta inutilidade do monstrengo. Mesmo para um megalômano como Trump (se é que a ele chega o absurdo), há de soar como ridicularia insignificante a manifestação, pois ao demônio louro mais interessa a dedicação à sua faina de ceifar vidas humanas, em guerras descabidas.

Convivo com a Assembleia Legislativa desde a juventude. Aos dezenove anos, era credenciado pela empresa Archer Pinto (O Jornal e Diário da Tarde) como o

repórter encarregado de cobrir e divulgar as sessões daquele parlamento. Assisti, é claro, a coisas curiosas. Um deputado discursava e, já não lembro a propósito de quê, afirmou que estava se sentindo como um tatu. O deputado João Valério pede-lhe um aparte, prontamente concedido. A gozação irônica foi implacável. O ilustre itacoatiarense indaga de seu colega: “Vossa Excelência se sente como um tatu-peba ou um tatu-bola?”

A galeria explodiu em risos e o presidente teve que dar trabalho à campainha.

Pelo menos havia originalidade. A moção vira-lata nem isso tem. Além de ridícula e inútil, é uma bofetada na cara dos verdadeiros amazonenses que, como eu, respeitam sua Pátria. Elogiar uma descabida interferência externa nos negócios do Brasil não é apenas feio. É vergonhoso.(Félix Valois é Advogado, Professor, Escritor e Poeta – felix.valois@gmail.com) – 13.06.2026