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POLICIAL GOLEADOR – Por Nicolau Libório

ARTIGOS/Dr-NICOLAU-LIBORIO(AM)

Antes da implantação do profissionalismo, que somente começou no Amazonas de forma precária em 1964, os clubes de Manaus usavam um jeitinho bem brasileiro para estimular seus principais jogadores. Por conta da influência política de alguns dirigentes, esses craques eram incluídos nas folhas de pagamento de algumas repartições públicas. Para exemplificar: Orlando Rebelo, Dermilson e Sula garantiram suas vagas na Assembleia Legislativa. Outros conseguiram suas vaguinhas no DER-AM. Em alguns órgãos esses funcionários não eram tão exigidos para merecer o “suado” salário. Mas na Polícia Civil, carente de material humano, tinham que justificar a grana que recebiam e, por isso, obrigatoriamente, dividiam o tempo entre os plantões no “casarão” da rua Marechal Deodoro, onde funcionava a chefatura de polícia, com treinos e jogos.

Nessa situação, conheci o goleador Tomás, os laterais Antero Marta Rocha e Eudóxio, do Rio Negro; o lateral Sales, com passagem pelo São Raimundo e Olympico; o centroavante Ney, do Sul América; o meio-campo Gióia, com títulos pelo América, Auto Esporte e Nacional, e o paraense Osmar, grande artilheiro do América, primeiro tetracampeão amazonense.

De 1978 a 1985, tempo em que exerci o cargo de Delegado de Polícia, tive a oportunidade de conhecer de perto os antigos craques, no atribulado dia-a-dia de uma delegacia. Lembro do temperamento extrovertido do lateral Antero Marta Rocha, da timidez de Tomás, do jeito caladão de Sales e do bom humor de Osmar, a grande arma do técnico Cláudio Coelho, nos anos 1950, no time fundado pelos irmãos Teixeira Alves. Aliás, foi fazendo muitos gols pelo América que o comissário Osmar conseguiu casar com dona Doracy, irmã da falecida esposa de Amadeu Teixeira, técnico do América desde 1955.

Durante quatro anos consecutivos, de 1951 a 1954, Osmar, que é um grande torcedor do Rio Negro, conseguiu ser o principal artilheiro da equipe no campeonato. Marcou 92 gols, sendo 22 em 1951, 20 em 1952, 25 em1953 e 25 em 1954. Em 1951 o América realizou uma campanha extraordinária, chegando ao jogo final invicto. Na decisão com o Nacional, o América venceu por dois a um, com dois gols seus. Em 1952, no jogo que confirmou o bicampeonato, repetiu a dose. E para completar a sua vitoriosa passagem pelo América, em 1954, no jogo que garantiu o tetracampeonato, confirmou a sua fama de artilheiro, com dois gols, na derrota imposta ao Nacional por três a um. Para quem saboreou quatro títulos consecutivos, Osmar admite que a melhor formação da fase de ouro do América foi Sandoval, Guarda e Darcy; Juarez, Gilberto e Gióia; Hélcio Peixoto, Osmar, Luciano, Ivancy e Nicolau.

Osmar Ferreira Vieira saiu de Óbidos para servir ao Exército, em Manaus, e depois retornar para a tranqüila, à época, cidade paraense. Mas o futebol mudou seus planos. É claro que não foi nada fácil. Dinheiro curto, poucos amigos e uma certa timidez para atrapalhar. Os seus gols, entretanto, se encarregaram de facilitar as coisas. Em 1953, o técnico Cláudio Coelho resolveu ajudá-lo. Conversou com o jornalista Herculano Castro e Costa (pai da apresentadora Baby Rizatto) então assessor do Secretário do Interior e Justiça e conseguiu que Osmar fosse admitido na antiga Guarda Civil. Não era um grande emprego, mas para quem não tinha conseguido nada melhor, foi um excelente negócio.

Osmar não era um grande driblador. Era jogador do tipo feijão com arroz. Aliás, toque refinado e passes precisos não faziam parte do seu repertório. O seu negócio era fazer gol, muitos gols. Era só lançar para área que ele se encarregava do resto. Chutava bem fazendo uso das duas pernas, sempre com extrema violência que deixava qualquer goleiro apavorado. Fazendo tantos gols assim, conseguiu ser titular da seleção amazonense de 1951 a 1956. Na seleção, jogou com Sandoval, Gatinho, Clemente, Gióia, Toscano, Nego, Hélcio Peixoto, Pereirinha, Nicolau e Lafayete Vieira, hoje desembargador aposentado, e outras feras da época.

Após o tetra, Cláudio Coelho trocou o América pelo Auto Esporte e levou com ele quase todo o time. Osmar, lógico, foi no bolo. No time dos motoristas, novo título, em 1956. A equipe campeã formou com Vicente, Guarda e Gatinho; Juarez (Jaime Basílio), Gilberto e Gióia; Sílvio (Gildo), Gordinho, Osmar, Sandoval e Nicolau. Osmar marcou 13 gols.

Osmar ganhou um novo título pelo Auto em 1959. Com muitas alterações, o time motorizado, como era conhecido, sagrou-se campeão com Alfredo, Valdér e Gatinho; Nonato, Almério e Guilherme; Totinha, Osmar, Gordinho, Caramuru e Manuel Conte. Dessa vez a pontaria de Osmar não foi tão eficiente e o artilheiro da temporada foi o seu companheiro Gordinho, com 25 gols.

Em 1958, o Santos da Cachoeirinha, campeão daquele ano, tinha um ataque de dar inveja: Tucupi, Pretinho, Gesnê, Pingüim e Cacheado. Para um bom jogo, um bom juiz. José Pereira Serra foi designado para dirigir Auto Esporte e Santos. Osmar, vestindo a camisa do Auto Esporte, procurou antes do jogo “bater um papinho” com Serra, pedindo aquela ajudazinha, porque a partida seria muito difícil. Serra não se fez de importante. Disse: cai na área que eu marco pênalti. Pode deixar comigo. Osmar corria para a área e bastava que alguém encostasse que ele já ia despencando. Caiu tanto que ficou com os joelhos ralados. E o árbitro nem se importava com os tombos do centroavante. No final do jogo, Osmar conseguiu perceber que o acordo não havia sido “perfeito”. Resultado: o Auto Esporte foi derrotado.(Nicolau Libório é Procurador de Justiça aposentado, Ex-Delegado de Polícia, Jornalista e Radialista) -29.05.2026