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Atos, fatos e causos do futebol amazonense – Por Nicolau Libório

ARTIGOS: Dr-NICOLAU LIBORIO(AM)

Durante o tempo em que integrei a crônica esportiva, convivi com importantes figuras, que ofereceram grande contribuição para a construção de uma bela e interessante história. Estive presente no saudoso estádio Parque Amazonense, na decisão do último campeonato amador de 1963, quando o Nacional sagrou-se campeão ao vencer o América do Amadeu Teixeira, por três a zero. O clube presidido pelo governador Plínio Ramos Coelho e dirigido pelo treinador Walter Félix, saiu vitorioso formando com Zé Maria, Boanerges e Jonas, Sula, Jaime Basílio e Wanderlan, Hugo, Fredoca, Português, Ribas e Pepeta. A competição teve como participantes Rio Negro, Auto Esporte, Fast, Labor, São Raimundo, América e Sul América. No ano seguinte, já na fase do incipiente profissionalismo, o Nacional voltou a ser campeão, formando com Vasconcelos, Boanerges, Jonas, Jaime Basílio e Vivaldo; Sula e Dermilson, Lacinha, Fredoca, Pretinho e Hugo. Verifica-se que o Nacional, da época da rua Saldanha Marinho, ostenta o último título da fase amadorista e o primeiro do embrionário profissionalismo.
Desse período romântico, lembro de nomes que contribuíram para as vitórias e até a sobrevivência das suas agremiações. Amadeu Teixeira pode ser citado como um exemplo. O América, dirigido por ele por mais de meio século, vivia mergulhado em dificuldades que se assemelhavam aos perrengues experimentados por Amadeu. Os momentos sempre foram difíceis para o humilde treinador que, enquanto teve forças para reagir, manteve firme o seu ideal, afinal de contas ele foi um dos fundadores do clube, que teve seu começo na rua da Instalação. Lembro que certa vez, indaguei sobre a razão do valente time do América só jogar na retranca. Ele me respondeu de forma direta. Disse: “você está redondamente enganado, o América não joga e nunca jogou na retranca. O adversário é que não deixa a gente jogar no ataque. Só para ilustrar, antes do América administrar o Parque Amazonense, fonte de renda para custear as despesas, Teixeira, que ganhava a vida com a venda de querosene, usava o seu caminhão tanque para transportar alguns jogadores, aqueles desprovidos de transporte próprio. Se alguém perguntar sobre os salários dos craques, a resposta é simples: salário-mínimo.

Vou lembrar do professor João Liberal, grande formador de gráficos, na antiga Escola Técnica Federal, responsável pelo surgimento de muitos jogadores do futebol amazonense. Ele era direto, não gostava de gastar seu tempo com conversa fiada. Certa vez, alguém querendo passar a imagem de bom moço, apareceu no campo do Nacional, em Adrianópolis, pedindo uma oportunidade. E para tentar convencer o experiente Liberal, foi logo dizendo: “sêo João, eu não bebo, não fumo e nem jogo”. A resposta do treinador foi imediata: se você não fuma e nem bebe, parabéns. Mas se você não joga não me interessa. Eu preciso de alguém que jogue. E muito.
Faço questão de destacar um dos nomes proeminentes do Nacional e do futebol amazonense: Alfredo Barbosa Filho, era nome de confiança de Plínio Ramos Coelho, presidente do Naça e governador do Estado. Como coronel, chegou a comandar a Polícia Militar. Com a queda de Plínio Coelho, no regime militar, iniciado em abril de 1964, Barbosa já havia deixado a PM, sendo nomeado para a Secretaria Fazenda, mas perdeu o cargo e os direitos políticos, passando a ocupar o seu tempo como colaborador remunerado do Nacional. Lá, exigindo disciplina e dedicação, contribuiu para o surgimento de grandes valores.

Com calma e bom humor, conseguia manter o ambiente sempre em elevado astral. Certa ocasião, na sede da rua Saldanha Marinho, na presença do radialista Valdir Correia, que também foi jogador da equipe juvenil, Barbosa que havia recebido o seu salário em dinheiro, foi abordado por um certo “amigo” frequentador da sede, que foi logo arriscando: sêo Barbosa, eu estou desprevenido, eu preciso de 50 cruzeiros emprestado. A resposta foi imediata: não. E completou: se eu não emprestar, eu perco o amigo. Se eu emprestar, eu perco o dinheiro e o amigo.

Outra figura conhecida foi Jandeir Cardoso, do Sul América, que além de treinador, foi escrivão de polícia. Certa ocasião, antes de um jogo contra o São Raimundo, Jandeir, para criar um clima favorável, anunciou que seu time estaria presente no clássico Galo-Preto com um esquema arrasador, atacaria em X e defenderia em zigue-zague. A verdade é que o time do bairro da Glória não apresentou nenhuma novidade, jogou mal e perdeu o jogo.(
Nicolau Libório é Procurador de Justiça aposentado, ex-Delegado de Polícia, Jornalista e Radialista). Manaus(AM), 06.Novembro.2026