
O esporte me proporcionou agradáveis instantes. Vou relembrar de um fato que me garantiu um efêmero momento de fama. E para contar essa história, vou lembrar do Canal 100, cinejornal criado por Carlos Niemeyer, exibido nas telas dos cinemas de todo o Brasil, na cobertura cinematográfica de futebol, com destaque para a trilha da música “Na cadência do samba”, interpretada na versão instrumental pelo pianista e compositor Waldir Calmon. A criação de Niemeyer durou de 1959 até parte de 1986, com sucesso absoluto.
Antes dos longas-metragens, as imagens de Garricha, Didi, Nilton Santos, Dida, Carlinhos, Gerson, Silva, Carlos Castilho, Paulo Henrique, Almir Pernambuquinho, Fio Maravilha Júnior, Paulo Borges, Amarildo, Nelsinho, Roberto Dinamite, Abel Braga, Zico e muitos outros que se tornaram conhecidos pelas imagens exibidas nas salas de cinema. E, jamais poderia deixar de citar Pelé, o único jogador no mundo a conquistar três campeonatos mundiais. Ao som de “Na Cadência do Samba”, belos gols, dribles desconcertantes, espetaculares defesas dos goleiros, a plateia vibrava com as novidades do final de semana. O palco destacado era estádio Mário Filho, o majestoso Maracanã.
E agora vou relembrar do fato referido no início: a seleção brasileira, dirigida por Zagalo, tinha jogo-treino em Manaus, no dia 5 de abril, contra a seleção do Amazonas, na fase de preparação para Copa do Mundo de 1970, no México, na pré-inauguração do estádio Vivaldo Lima. Na verdade foram dois jogos-treinos, entre os times A e B, do escrete nacional e do Amazonas. Tanto no primeiro embate quanto no segundo, os escores foram idênticos: 4 a 1 e 4 a 1.
A expectativa era imensa. Em cada esquina, em cada boteco, em cada residência o assunto era a seleção. Assistir Pelé, Tostão, Gerson, Jairzinho, Clodoaldo, Carlos Alberto Torres, Rivelino, Paulo César Caju ,Wilson Piazza, desfilando pelo belo gramado do novo estádio era a preferência unânime.
Na véspera do tão esperado espetáculo, dia 4 de abril, toda a crônica esportiva foi marcar presença no aeroporto de Ponta Pelada, hoje aeroporto militar (o Eduardo Gomes ainda não existia). Acontecia uma verdadeira confraternização entre os profissionais locais e os grandes nomes da mídia nacional. Para cobertura do evento estiveram aqui as rádios Globo, Tupy, Bandeirantes, Jovem Pan, que registraram o ambiente festivo por meio das vozes de Jorge Cury, Ruy Porto, Joseval Peixoto, Haroldo Fernandes, Denis Meneses, Fausto Silva (o Faustão) e outros renomados da época.
Aguardando a aterrissagem do avião que transportava a delegação brasileira, eu, da Rádio Difusora, o jornalista do Jornal do Comércio José Ribamar Garganta e o cinegrafista do Canal 100, estávamos sentados em torno de uma mesa do restaurante do aeroporto de Ponta Pelada. Ao sabor de alguns goles do guaraná Magistral, procurávamos definir estratégias para o sucesso da cobertura. O cinegrafista apresentou uma ideia que eu topei na hora. Foi um desafio. Ele disse “se você conseguir subir na escada do avião e entrevistar o Pelé, eu te coloco na tela”. Eu cumpri a minha parte, ele cumpriu a dele. Além de Pelé, nos poucos segundos em que estacionei nos degraus do desembarque, consegui entrevistar outros jogadores, que por sinal foram muito gentis. Mas a cereja do bolo veio depois. A minha imagem, um ilustre desconhecido no cenário nacional, apareceu nas telas de todo Brasil durante uma semana. Aqui fui visto no telão do cine Avenida. Por isso, passei a ser reconhecido e cumprimentado em todos os lugares de Manaus em que eu chegava. Estar próximo de Pelé era desejo de qualquer mortal. Mas a alegria não durou pouco porque, dias depois, tive uma surpresa muito agradável. Recebi de presente de um amigo, Dr. Trindade, dentista de profissão e fotógrafo por diletantismo, uma foto da minha façanha na escada à porta da aeronave, com Pelé, Everaldo, Clodoaldo e Roberto Miranda. Essa foto, que já completou 56 anos, faz parte do meu livro Memórias do Esporte no Amazonas, lançado em 2009.
Na minha trajetória de 7 anos como Delegado de Polícia, 17 como Promotor de Justiça e 21 como Procurador de Justiça, tenho que admitir que o meu momento de fama aconteceu como cronista esportivo, na primeira fase da minha vida.(Nicolau Libório é Procurador de Justiça aposentado, ex-Delegado de Polícia, Jornalista e Radialista.(15-05-2026)










